As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Meninas da Noite (Gilberto Dimenstein, 1992)

"Durante seis meses, Gilberto Dimenstein investigou a rota do tráfico de meninas na Amazônia, viajando pelo submundo da prostituição infantil. O resultado é um livro que dá a sensação de estar diante de um filme de suspense policial. Cada passo da investigação e relatado com detalhes, mostrando como foi possível encontrar traficantes e um cativeiro de meninas-escravas protegidos pela selva amazônica. Uma reportagem investigativa com repercussão dentro e fora do Brasil." Descrição no livro


Título: Meninas da Noite - A Prostituição de Meninas-Escravas no Brasil 
Autor: Gilberto Dimenstein
Editora: Ática
Ano: 2000 (16ª edição)
Páginas: 165
Tema: Sociologia, Prostituição Infantil, Amazônia

A obra é de 1992, mas a realidade apresentada, apesar dos anos que se passaram, é algo que persiste na sociedade.
Contextualizando, o livro traz uma reportagem investigativa sobre a prostituição infantil na Amazônia, passando por várias cidades no Norte, Nordeste e Centro-Oeste em um período de seis meses, com a metodologia de encontrar as adolescentes dando voz ao que vivenciavam. A abordagem não se prende a referenciais teóricos em sociologia, os relatos das meninas são provocativos a essa percepção nas causas e consequências.
Entre as causas, evidenciam-se fatores como a desestruturação familiar (violência, ausência dos pais, conflitos gerados pelo alcoolismo, conivência com a corrupção no lar); o abandono do poder público em garantir direitos essenciais (como a educação e proteção) e a falta de oportunidades em um cenário de carências diversas, suscetível a ação de aliciadores.
Nas consequências, a constatação de uma realidade que escraviza e destrói (física e emocionalmente), predispondo desdobramentos para o tráfico de mulheres, drogas, violência, gravidez precoce, abortos, doenças e mortes.
Os relatos chocam, falando de venda de crianças pelos pais, leilões de virgindade e impunidades diversas, envolvendo também elementos da esfera governamental.
O que me pareceu mais melancólico foi a visão de mundo forçada nas meninas, que muitas vezes resumem nesse meio a única forma de sobrevivência.
Há coisas deprimentes sobre exploração e o objetivo do livro é instigar a transformação do impacto, na sociedade e autoridades, em ações contra essa realidade.
O livro tem acervo fotográfico, com imagens que falam por si mesmas ao contrastar a inocência da infância com a perversidade do mundo da prostituição.
Registro também uma observação que chamou minha atenção, sobre a Amazônia ser conhecida internacionalmente em movimentação contra a sua devastação, mas ser pouco conhecida quanto a vidas devastadas que nela habitam,
Do ponto de vista sociológico, é uma obra importante de ser difundida e conhecida. O conhecimento expresso é ainda realidade presente e não se restringe ao cenário de cá.
O que não me pareceu coerente (aspecto que não concordei) é que o autor, no ponto de vista histórico, baseou algumas conclusões em considerações pejorativas, irreais com a verdadeira identidade dos fatos. Não por ser amapaense, pois reconheço a realidade descrita, mas fazer redução do antigo Beiradão (hoje Laranjal do Jari) como cidade criada para fornecer mulheres para o Projeto Jari é desconhecer e ignorar a história e chega a ser até mesmo um tanto irresponsável. É como dizer que as favelas foram criadas para o tráfico e que todo brasileiro é malandro (em face da visão pejorativa no exterior). Não se trata de bairrismo, pois a mesma observação em relação a realidade dos fatos também aplico a Rondônia, que teve sua economia e desenvolvimento associados, em sua maior parte, ao tráfico de drogas no registro do autor. Não é o aspecto principal do livro, mas achei importante expressar no que quero guardar em percepções sobre a obra.
Leitura importante, principalmente pelo tema ainda ser presente, seja na Amazônia, seja no país como um todo: a prostituição infantil.


Se você quiser consultar e ter seu parecer, concordando ou não com o que referenciei, o livro está disponível para consultas (para a galera em Macapá) na Biblioteca Ambiental da SEMA-AP.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Amapá d'Outrora (Elfredo Távora Gonsalves, 2015)

"A história dos primeiros anos de Amapá Território ainda não foi contada ou escrita completamente. Obviamente não poderia fazê-lo a contento, porque não sou historiador. Todavia, propus-me a citar os fatos vividos por mim nestes longos anos de vida no Território (maio de 1943 a 2012). A maioria são impressões que mais ficaram na memória; os demais, alguns problemas ligados às imensas riquezas do Amapá, ainda não explorados devidamente e, além disso, um esclarecimento sobre a verdade do contrato do manganês. Procuro alinhar algumas das muitas riquezas que o Amapá possui e que o público sabe que existem, mas não tem consciência de seu valor intrínseco. O cidadão comum precisa inteirar-se das suas potencialidades, para que se possa pressionar os seus representantes a lutar por medidas necessárias à exploração racional desse patrimônio que, a meu ver, continua esquecido ou ignorado." ELFREDO TÁVORA GONSALVES
Informações gerais:
Título: O Amapá d'Outrora
Autor: Elfredo Távora Gonsalves
Editora: Tarso
Ano: 2015
Páginas: 176
Tema: Memórias, História do Amapá, ICOMI

Registro no Skoob: 
Excepcional livro de Elfredo Távora, jornalista e pioneiro no Território Federal do Amapá, publicado em 2015, ano de seu falecimento. Um relato de amor a terra, valorizando a história (interessante em sua percepção como pioneiro), riquezas e, principalmente, reflexões em conceitos que se estabeleceram sobre o desenvolvimento amapaense.
O primeiro momento é de ênfase às riquezas, se estendendo em diferentes recursos naturais. Potencialidades correlacionadas à ocupação e exploração da terra, em história revisitada desde os tempos coloniais.
A descrição é didática e prática, abordando a importância científica e o contexto de exploração no Amapá.
O autor tem visão muito interessante. Bauxita, cassiterita, ouro, ferro, caulim (você sabe onde é explorado e quem lucra com isso?), produtos madeireiros, entre outros aspectos, são apresentados com direcionamento ao Amapá. Dessa forma, a leitura gera conclusões que desmistificam muitos conceitos (como a visão recorrente sobre a ICOMI), reveladoras também sobre figuras históricas (como Janary Nunes e sua disposição facilitadora à ações contratuais que acabaram sendo prejudiciais ao Amapá).
O paralelo entre o desenvolvimento do Amapá e ação da ICOMI é o aspecto mais interessante do livro. Elfredo Távora chama atenção para importante discussão, onde quem ganha é o povo amapaense, desmistificando visão de que a empresa foi extremamente benevolente e responsável pelo desenvolvimento do estado.
Existe a visão emotiva, nostálgica de quem fez parte, vivenciou e assim de alguma maneira foi beneficiado pelo empreendimento (rotineiramente prestigio algo nesse sentido). Mas tem também a visão de análise da representatividade da empresa para o estado, para o povo amapaense, analisando-se de forma prática essa relação. É a esse segundo aspecto que Elfredo chama a atenção no livro.
Além da percepção como pioneiro desde 1943, ter trabalhado no Território, desenvolvido história jornalística, vivenciando ou conhecendo muitas personagens e fatos, o autor privilegiou também duas fontes de consultas: Quem explorou quem no contrato de manganês (Álvaro da Cunha, 1962) e O Amapá nos tempos do manganês (Drummond e Mariângela, 2007).
Em linhas gerais, o autor reacende a discussão fomentada por Álvaro da Cunha já nos primórdios da ICOMI no Amapá, sobre o acordo que beneficiava mais a empresa do que o Território. Entre outras coisas, esse contrato foi feito em sigilo e pressa, com ditames que na prática geraram isenção de muitos impostos, permitiram ação fechada da empresa sem intervenções governamentais, onde se beneficiou do governo para seus interesses, não apresentando relatórios de balanços financeiros. O autor chama as vilas de guetos sociais, onde a realidade fora desse contexto gerou bolsões de pobreza na periferia, devido a idealização de um Eldorado. A estrutura das vilas, super destacadas da realidade amapaense, foram sobretudo uma iniciativa privada para atender os interesses de produtividade, não uma benevolência. Na prática, além de gueto social, como se referiu o autor, também pareciam sociedade distópica por conta do monitoramento e controle acirrados em vários sentidos.
Essas considerações, não enfatizadas no livro de Drummond e Mariângela, são as principais questões do autor em contraposição. O desenvolvimento amapaense está relacionado à suas potencialidades, onde a ICOMI teve facilitações para explorar, gerando muita injustiça no que se estabeleceu comercialmente para o Amapá e, no imaginário, se tornou uma empresa benevolente que teria sido responsável pelo desenvolvimento. Elfredo enfatiza esses aspectos, que não podem se ausentar ou dissociar no estudo sobre a ICOMI.
As questões são trabalhadas com muita propriedade e a leitura é imprescindível para estudiosos da história amapaense.
No final, tece algumas considerações sobre a Amazônia, destacando outras manobras externas que também espoliaram riquezas (como o roubo das sementes da seringueira no século XIX por inglês, que acabou com o áureo ciclo da borracha).
O único aspecto que não achei interessante, foi a breve consideração sobre o coronelismo. Espoliaram e usufruíram da terra também, com ditames arbitrários em interesses individualistas, como José Júlio de Andrade na Jari. 
Leitura envolvente e instigante.

Em Macapá, o livro pode ser consultado na Biblioteca Pública Elcy Lacerda (Sala da Literatura Amapaense) e Biblioteca SEMA-AP. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

BRUMASA, Avanço Industrial da Amazônia (ICOMI)

"Em 1968, foi instalada em Santana a empresa Bruynzeel Madeira S.A. - BRUMASA. Tal empreendimento, originado de um acordo entre a ICOMI e um grupo de empresários holandeses, teve como atividade principal a fabricação de compensados a partir dos recursos florestais locais, como também a exploração da virola (Virola surinamensis). Com esses investimentos, em 1970 o setor extrativismo vegetal correspondeu a 32,4% do valor de produção da economia amapaense.
A BRUMASA foi a segunda empresa, depois da ICOMI, a ter uma participação fundamental no comércio exterior do Amapá no período de 1973 a 1982, chegando a posicionar-se como a 11ª empresa de laminados no ranking nacional, em 1977. Foi desativada em 1988 devido ao esgotamento da virola no Amapá e suas instalações foram integradas às da fábrica de cavacos da Amapá Celulose S.A. (AMCEL)."
Texto de Jadson Luís Rebelo Porto, extraído do livro Amapá: Principais Transformações Econômicas e Institucionais (1943-2000).

A obra a seguir foi publicada pela ICOMI. A data não foi identificada, mas remete à época de instalação da BRUMASA, constituindo-se, em termos gerais, em breve apresentação.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 6

Fábulas (1922)
O livro é de 1922, entre os primeiros sobre o Sítio. Vemos histórias que seriam retocadas e republicadas em obras como "Reinações de Narizinho" e "Viagem ao Céu".
Em linhas gerais, o jeito lobatiano de adaptar um contexto (como história, literatura ou ciência) valorizando aspectos da cultura local e, o que é interessante, de forma provocativa aos jovens leitores.
A atenção foi para as fábulas, contadas por Dona Benta em gostosas narrativas de vó para a turminha. São cerca de setenta, sendo a maioria de La Fontaine e Esopo, mas tem também do folclore e da cachola de Dona Benta. A turminha se expressa no que entendeu, concordou (ou não), manifestando seu agrado ou desagrado e estendendo a aprendizagens em exemplos observados no convívio de sua realidade. 

Claro que tem também a torneirinha de asneiras da Emília e, aqui e acolá, pitacos científicos do Visconde, percepções ingênuas da Tia Nastácia, o romantismo aventureiro e sonhador de Pedrinho e Narizinho e, através da Dona Benta, paralelos entre antiguidade e modernidade, que o autor estende para a percepção da linguagem e cultura.
Ah, mas sem dúvidas um dos aspectos mais legais fica mesmo por conta dos pitacos da Emília, às vezes, refinada esperteza. Principalmente quando propõe finais diferentes, como o desenlace que deu para "O Lobo e o Cordeiro". Falando nessa, Lobato afirmou que entre todas é a fábula mais conhecida. Para mim, seriam a da "Cigarra e a formiga", "A raposa e as uvas" e "A assembleia dos ratos". 

Talvez essas fábulas não fossem tão conhecidas pela garotada, ainda mais por algumas apresentarem contexto originalmente violento (apesar da época não fazer distinções como hoje). Redobra-se o valor do autor, que reconta para a garotada e a turminha não se limita a dizer se gostou ou não. Dá também os porquês.
As fábulas em boa parte retratam cenário de opressão do forte sobre o fraco, onde a esperteza (ou sabedoria ou informação) é a maneira de se livrar disso.
A que mais gosto é a do "Velho, o menino e a mulinha". Uma graça, cheia de ironia com o relativismo e indefinições de posicionamento na vida. "A morte e o lenhador" também é paidégua ! Gosto também de "O cão e o lobo" e de... Ah, de várias!

É, mas as de maior impacto no livro são as que exacerbam a injustiça, tipo "O Lobo e o Cordeiro", "O julgamento da ovelha" e "Liga das nações". Essa e outras vão em um contexto de retrato político, que Lobato faz a turminha se deparar, refletir e se manifestar.

Curiosidades banais a parte: faltou aquela fábula do gato que ensinou a onça a saltar menos "o pulo do gato" (que foi lembrada pela Emília), O Elias turco é mencionado como pai de uma menina (não recordo se isso foi explorado em outros livros ou seriado) e "Os animais e a peste" (a fábula de onde veio o Burro Falante - o Conselheiro).
Belo livro! No final podemos comprovar mais um ponto: algo já feito não esgota a possibilidade de explorações diferentes e legais.

Valeu, Lobato!


História do mundo para crianças (1933)
Belíssima obra! Extraordinária pelas informações e detalhamentos em um passeio curioso  pela história da humanidade, contada em serões de Dona Benta com a turminha. O autor fala de civilizações, personagens significativas na história, arte, ciência, política, modernidade, filosofia, religião e outros aspectos. Aquela dinâmica conhecida se repete, da turminha interagir com as informações em opinião, reflexão e paralelos na visão da atualidade.
Foi publicada em 1933, mas certamente foi retocada pelo autor, que descreve fatos ocorridos na década seguinte, como a Segunda Guerra Mundial e a explosão da bomba atômica em Hiroshima.
Tem tanta coisa interessante, no sentido de fomentar discussões, que teria despertado incômodo ao Estado Novo e igreja. Dona Benta fala contra opressão do povo, Lobato em certo momento dá a entender ser simpatizante do antigo regime monárquico e a turminha discute sobre pontos relacionados à religiosidade, como as Cruzadas, a Inquisição, a ruptura no Cristianismo, massacres entre católicos e protestantes, além da valorização das teorias evolucionistas de Darwin.
A valorização é para a História como é contada nos livros didáticos e afins. Importante ressaltar, pois a história muitas vezes é mutável com novas aprendizagens, e algumas coisas se estabeleceram estrategicamente por induções e manobras interesseiras. O princípio valorizado parte da total aceitação dos fatos outrora registrados, desdobrando-os para reflexões.
Outra coisa importante é que o autor novamente trouxe para a perspectiva dos picapaus algo já estabelecido no contexto de época. É o caso do livro Child's History of the World (História do mundo para crianças), publicado em 1924 pelo professor americano V. M. Hillyer, que rapidamente se tornou importante obra da literatura infantil. Lobato não omite e cita o livro no início - quando Dona Benta o recebeu pelo correio, ficou instigada e resolveu dividir esse saber com a garotada. Ah, mas garanto que tem muito marmanjo que vai se surpreender também com essa valorosa publicação.
Claro que tem o toque pessoal no olhar abrasileirado e, partindo ou não do autor, gostei dos sutis momentos de valorização a saberes em sua etimologia ou correlação com momento histórico. Como a origem de palavras como estoicismo, quando falou da Grécia antiga, ou protestante, no contexto que gerou essa denominação para os reformadores na igreja.
A parte do Darwinismo (que não creio) é o pontapé inicial das histórias de Dona Benta e daí vamos avançando em diversos momentos da história da humanidade. Egito, Grécia, Israel, Mesopotâmia, Roma, Idade Média, Navegações, e só estou citando alguns.
Outra coisa que despertou atenção. Em resenhas anteriores lamentei a ausência e viajei em como seriam incursões de Lobato pela literatura bíblica. E não é que esse livro tem! Específicas em pelo menos dois capítulos (sobre a história dos Judeus conforme o Antigo Testamento e sobre Jesus nos Evangelhos). Provavelmente Lobato apenas reproduziu a obra de Hillyer, mas são suas as impressões na turminha, principalmente na reflexão sobre a história da cristandade. Senti o autor desiludido por conta do comportamento humano, sendo esse aspecto o que o direcionou em sua visão sobre Deus. Oh! Olhemos para Jesus, se quisermos realmente encontrar Deus. Olhemos para Jesus e sua mensagem, porque o testemunho dos homens muitas vezes só tende a incentivar cegueira e desânimos por conta de ações contrárias a fé professada.
Os relatos bíblicos estão um tanto borocoxôs. O autor descreve contentando-se e dando atenção só para o elemento humano. A presença de Deus em suas ações não é valorizada. Só uma vez aparece a palavra Senhor. Bem se vê percepções e conclusões marcantes a partir da centralização do homem como norteador de vida. Olhemos para Jesus Cristo!
Falando em reações, os picapaus demonstram revoltas com as injustiças e empolgam-se com descobertas e aprendizagens, mas passei a ter outra imagem sobre Narizinho. Emília, Pedrinho e Visconde parecem ver as coisas no que gostariam de vivenciar (pelo prazer da aventura, vontade de corrigir algo devido visão incômoda, desejo de testemunhar algo, tudo num plano com egocentrismo, sem ser ruim). Mas com Narizinho a coisa é diferente. A menina parece demonstrar percepção mais humanista, de ver as coisas num plano onde se insere e sofre com a injustiça por ter um olhar mais abrangente, de valorização do outro e não essencialmente de sua vontade. O livro sugestiona isso. Será que estou conseguindo explicar o que sinto... Vale a tentativa. Em vários momentos a menina tem quase um desmaio de revolta, passa mal e Dona Benta tem que interromper a história para seu restabelecimento diante do impacto que sofrera. Aconteceu com as narrativas sobre o Nero em suas perversidades, na descoberta da mitologia dos Fenícios (sobre o deus Moloque e Asterate, que recebiam sacrifícios de crianças, citados também na Bíblia), a escravidão, Joana D'Arc e outros momentos. É dela que partem sempre as observações mais interessantes ao lado de Dona Benta.
Na parte da escravidão Lobato manifesta seu repúdio, referenciando como um cancro na história humana.
Vou deixar em registro também o capítulo "A era dos milagres", apenas por ter a primeira parte rotineiramente reproduzida em livros escolares, pelo menos no meu tempo de estudante.
O Lobato era adepto do comunismo? Não sei, mas tem capítulo em que parece criar uma expectativa com a Revolução Russa. O texto fala de dar tempo para ver resultados, se positivos ou não (Ora! Comunismo só oprimiu, roubou, torturou e matou, em todas as experiências mundo afora).
Enfim, uma viagem sensacional.  

sábado, 6 de janeiro de 2018

Incoerência Humana - Naufrágio do Novo Amapá (Francisco Hermes Colares, 2002)

"Desculpe-me, leitor amigo
o que agora vou relatar
é um fato muito chocante
que eu preferia não lembrar
mas decidi descrever
para melhor registrar.

O ano de oitenta passou
e dele ficamos a reclamar
oitenta e um entrou alegre
somente para nos enganar
e em apenas seis dias
nos fazer a todos chorar."
(Versos iniciais do cordel)


Título: Incoerência Humana - Naufrágio do Novo Amapá
Autor: Francisco Hermes Colares
Editora: Gráfica Amapaense
Páginas: 36
Ano: 2002
Gênero: Literatura de Cordel

Histórico cordel publicado em 2002, para leitura e reflexão do valor da vida acima de qualquer interesse. Cada verso exprime tristeza dilacerante, escritos por Francisco Hermes Colares, que acompanhou de perto o desenrolar dos fatos, apresentando exatidão e emotividade na narrativa.
Vemos as expectativas dos viajantes, a superlotação com descaso das autoridades competentes, o drama daquela fatídica noite em 06 de janeiro de 1981, o sofrimento e morte das infelizes almas, as expectativas de notícias no porto de Santana, a mobilização de resgate, o funesto enterro na cova coletiva no cemitério santanense, as homenagens e a dor de todos pela maior tragédia ocorrida nos rios amapaenses.
Para quem não conhece a história, o Novo Amapá naufragou por conta de excesso de passageiros e cargas, quando viajava de Santana (AP) para a Vila de Monte Dourado (PA) através do rio Jari. Mais de 300 pessoas morreram na embarcação preparada para receber cerca de 150 passageiros. Estima-se que estavam a bordo mais de 600 pessoas...
Era uma tragédia anunciada. Viajei nesse barco pouco antes do desastre. Na ocasião, estava superlotado, com o casco quase todo afundado, tendo pavimento de passageiros rente ao nível da água (e ainda lembro de carros na parte de cima da embarcação). Prenúncios de uma tragédia! Que se confirmou pouco depois, marcando para sempre a história da navegação da Amazônia e deixando famílias enlutadas e com uma dor sem medidas em várias cidades. Testemunhei choro e comoção em Monte Dourado, onde me encontrava na ocasião. Muitos, em um mecanismo de defesa, até negavam, diante de informações imprecisas.
O fato foi também decisivo para o fim do Projeto Jari na direção do magnata americano Daniel Ludwig (que passava por insucessos em projetos e enfrentando propagandas negativas encabeçadas pelo governo militar). A maioria dos passageiros era de trabalhadores da Jari.
Uma curiosidade funesta para o ano de 1981 é que em 19/08 naufragou também o Sobral Santos, que fazia linha entre Santarém e Manaus, com um número de vítimas semelhante a tragédia do Novo Amapá.

A obra pode ser consultada 
na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

Veja também: 
- Morte nas águas: A Tragédia do Cajari (1981 - Livro) 
- Novo Amapá: A maior tragédia fluvial da Amazônia

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 5

O Picapau Amarelo (1939)
Sabe aquele filme do Shrek, em que personagens das fábulas invadem o pântano a convite do Burro? É o que acontece neste livro do Lobato, quando o Polegar leva essa turma para morar no Sítio. Ah, pelo menos pediu autorização para Dona Benta. Oba! Aleatoriamente acabei acertando algo! O livro se passa depois do Poço do Visconde, minha última leitura, quando enricaram com o petróleo e aproveitaram para comprar terras nas cercanias do Sítio. Esse foi o primeiro destaque, que teve a sagacidade da Emília para comprar a terra dos vizinhos. Depois vemos uma série de aventuras na interação dos picapaus com personagens das fábulas (curiosas, inusitadas e divertidas). Ah, e tem também personagens da mitologia grega e literatura universal. Gostei e cito: as maluquices do Dom Quixote (que via ações do famigerado mago Fresnom supostamente transfigurado em criaturas como o pobre do Quindim); a narrativa de Belerofonte sobre o embate com a Quimera; a turma do Sítio enfrentando os terríveis piratas liderados pelo Capitão Gancho; e a gulodice do Sancho Pança (pau a pau com a do Rabicó). Lobato novamente valorizou as fábulas e mitologia em apresentação para tenros leitores, naquela dinâmica de conhecer e brincar com as descobertas. Para o autor não basta expor, é interessante também uma brincadeira interativa.   
Tem coisa que não curti e vou registrar. No início da obra há uma abordagem sobre mitos e ficção onde o autor subentende o ateísmo. É só uma observação de minha parte, que me ajuda a pontuar o que conheço sobre o autor. Referenciando algo mais do livro:
- Capitão Gancho perde o famigerado Hiena do Mares para a turminha, que o reforma como o Beija-Flor das Ondas
- Tia Nastácia apaixonada... Ah, não se explicou pelo que ou por quem, evidenciando-se a paixão como um sentimento de êxtase. O fato resultou de artimanha da Emília com flechas do Cupido.
- O casamento de Branca de Neve com o Príncipe Codadade e uma nova visitação de crianças no Sítio, ávidas por conhecer os picapaus.

Termina com um mistério, o desaparecimento de Tia Nastácia, assunto para o próximo livro: O Minotauro.  
Essa é a essência da obra, passando a percepção de descobertas com interação curiosa e divertida no mundo da leitura.

O Minotauro (1939)
Conheci essa obra através do antológico Sítio do Picapau Amarelo versão anos 70. A percepção era de uma história de terror, assustadora para a garotada em cada aparição do monstro que, mesmo com uma figura super tosca, dava medo por conta do suspense potencializado nas perseguições no famoso labirinto, imagens obscuras e trilha sonora cabulosa. Curioso que na versão do segundo milênio, que também acompanhei, a história não teve o mesmo impacto.
Comparativamente ao livro, há algumas diferenças e a principal é o foco. No seriado o Minotauro era o principal personagem no desenrolar da história, e no livro o destaque maior é a Grécia, em uma viagem de descobertas e curiosidades.
Os picapaus (designação que o Lobato dava para a turma do Sítio) embarcam no Beija-Flor das Ondas (o navio confiscado e reformado do Capitão Gancho) para resgatar Tia Nastácia, que fora raptada na festa de casamento do Príncipe Codadade com Branca de Neve, quando houve a invasão de monstros das fábulas em episódio descrito no livro anterior (O Picapau Amarelo).
Quem gosta dessa obra certamente manifesta algum interesse na visão da Grécia antiga, porque a maior parte são aspectos históricos e mitológicos.
A parte específica sobre o Minotauro, para quem tem a imagem construída pelo seriado, desaponta um pouco. Além de rápida, não enfatiza a questão do terror. É bem assim: será que conto? nããããão! leia o livro.
Particularmente, gostei mais da parte histórica expressa no encontro com personagens famosos como Péricles, Fídias, Sócrates e Sófocles (respectivamente, destacados como estadista, escultor, filósofo e dramaturgo). Esse desenrolar tem o protagonismo de Dona Benta, que dá show em curiosidades para o leitor.
Há algumas questões interessantes que também vão aparecendo, evidenciando a cultura grega ter influenciado o desenvolvimento da modernidade. 
Olha que sensacional! Em certo momento de diálogo com Péricles (famoso pela liderança e oratória) o estadista fala de liberdade e esta ser uma das coisas de maior valorização entre os gregos. A sagaz velhinha observa então que o conceito de liberdade expressa na vontade do povo muitas vezes resulta da capacidade de manipulação de seus líderes. O que seria sua vontade, pode ser a consequência daquilo a que está sugestionada, reproduzindo, no final das contas, o interesse dos líderes (dito isso para o convincente orador Péricles e coincidentemente publicado no ano em que certos líderes insuflaram o povo para a famigerada segunda guerra).
A carismática vó embala o conceito de liberdade, chamando também a atenção para o sistema de escravidão que existia entre os gregos, desmistificando o que eles atribuíam como sociedade perfeita. Havia escravidão em paralelo a nobres ideais.
E por aí vão os encontros, com direito a momentos um tanto hilários, na admiração dos antigos pelos milagres de nossa modernidade, como uma simples caixa de fósforos (quando existia uma lenda hiper dramática de como o fogo chegou aos homens).
Há reflexões sobre a profundidade do conhecimento, sobre a valorização das artes, sobre o progresso aflorar em aspectos miraculosos e em paralelo, às vezes, ocorrer a degeneração de certas coisas (o uso).
Enfim, gostei e me diverti bastante com esse momento. Ah, e tem certas curiosidades desconhecidas. Por exemplo, não sabia que Péricles tinha uma anomalia na cabeça, que fazia com que fosse alongada e por isso suas reproduções (pintura e escultura) o mostravam sempre com um elmo. Pesquisa aí no Google Imagens se duvidar.
A parte da mitologia é protagonizada pelo Pedrinho em interação aventureira. O destaque vai para história sobre Hércules, mas Lobato dá só um gostinho, pois as façanhas são abordadas em outra obra. Não gostei muito do momento e preferia que o protagonismo fosse encabeçado pela Emília em suas mirabolantes curiosidades e posicionamentos. Seria mais legal!
Estranhei o Lobato não ter dado destaque para Visconde, que quase não gastou seu conhecimento. Ficou na sombra de Dona Benta. Melhor assim, porque a velhinha é mais sagaz, discutindo situações, e o Visconde manobrável demais. Pergunta para a Emília se não...
Olha o que Lobato trazia em reflexão para as crianças!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 4

Peter Pan (1930) 
O desenrolar é subsequente ao Reinações de Narizinho, em um contexto em que o Gato Félix menciona o Peter Pan, instigando Dona Benta a contar suas aventuras para a turminha. Basicamente, é a clássica história com intervenções da turminha, entre um comentário irônico de Emília, admiração de Pedrinho e Narizinho, entendimento de algum aspecto com ajuda do Visconde e um choque cultural nas descobertas de Tia Nastácia.
Ao longo da coleção percebemos que os primeiros livros são os que apresentam mais aspectos criticados pelos comentários considerados racistas. Sendo esse um dos primeiros, há citações nesse sentido, ditas por Emília e até por Dona Benta. 
A modernidade faz com que os tons arcaicos do livro fiquem super explícitos, destoando como algo que não é legal. Tipo assim, vemos uma apresentação super bacana da Emília e de repente um comentário dela pra lá de mau gosto (coisas do contexto de época).
Enfim, passa a mensagem da infância como uma efêmera fase de encantos e descobertas, realçando nostalgia disso ao final.

Dom Quixote das Crianças (1936)
O livro é muito legal em uma bela apresentação do Quixote para a turminha. Dona Benta conta em resumo, apresentando o Cavaleiro da Triste Figura em suas mirabolantes aventuras. Foram citadas passagens como: a recuperação do famoso Elmo de Mambrino (a bacia do barbeiro), a intervenção do herói contra os exércitos que se enfrentavam no campo de batalha (rebanhos de ovelha), o governo de Sancho Pança (inusitadamente carismático e aclamado por sábias decisões) e o duelo com o Cavaleiro da Lua (artimanha dos parentes e amigos do Quixote para provocar o regresso ao lar). Textos que tem drama e humor peculiar entre razão e emoção.
Minha maior atenção foi para a percepção da turminha. Pedrinho e Narizinho acompanham a história com dó do herói, enquanto Emília vê algo inspirador que a mobiliza na valorização de seus sonhos, ainda que malucos. E ela fica maluca mesmo, mais que o normal, tendo que ser contida até recuperar o juízo (que aconteceu no choque de realidade expresso em um pequeno acidente, onde viu sua fragilidade ante os arroubos emotivos da empolgação em paralelo ao descuido). No final das contas, rendeu uma aprendizagem legal: a inspiração para viver sonhos, mas de maneira prudente.
Olha que interessante! A valorização dos sonhos fez com que Emília fosse a única a não querer saber do final da história, a morte do Quixote, pois dizia ser imortal. Isso é o que marcou o livro em minha leitura e que guardo em lembrança.
Outras curiosidades para o universo que tento entender do Sítio, é que o Visconde tem mais uma morte, logo no início, ao ser esmagado pelo livro que caiu da estante em cima dele. Justamente o Quixote, a quem a Emília queria conhecer e acidentalmente deixou cair no sabugo. Seria uma mensagem do Lobato? No mínimo, ainda que não planejada, é como se fosse a emoção suplantando a razão - pela representativade do livro e Visconde, desejo e descuido. Uma quixotada!
Ah, vou atrás desse Monteiro Lobato em quadrinhos... Sei que tem e acredito que continuará trazendo mais curtição na leitura. 

O poço do Visconde (1937)
Acredito que seja o livro mais politizado de Lobato na coleção do Sítio. O autor expressa seu projeto de desenvolvimento do país propondo a extração do petróleo.
A história desperta a consciência para esse patrimônio natural e tem cunho didático, onde se explica a origem e peculiaridades do produto, a forma de extração, os benefícios econômicos associados à exploração, a importância da industrialização e necessidade de melhorias na infraestrutura (portos, rodovias, ferrovias). Lobato não é um simples entusiasta ou sonhador e procurou racionalizar sua visão com informações científicas e do contexto da economia mundial, destacando o projeto como uma possibilidade viável e transformadora.
Percebemos a dimensão do livro quando vemos o momento em que foi publicado. As palavras e disposições entusiastas na história eram reais na luta pioneira de Lobato na extração de petróleo no Brasil. Porém, enquanto que no livro havia a adesão e investimento, na mobilização de Lobato surgiam muitos empecilhos para que levasse avante o projeto, sendo até preso no governo de Getúlio Vargas.
A visão de modernidade e industrialização proposta era algo que enfrentava resistência por parte do governo sujeito à influência submissa à outras nações. Prevaleciam velhos conceitos, ligados a um modo de produção secular, onde se destacava a política café com leite, pouco interessada na abertura de concorrências ou que descentralizasse o capital em múltiplos empreendimentos de desenvolvimento na infraestrutura.
Interessante que em paralelo ao nosso conservadorismo econômico, outras nações fortaleciam suas economias investindo nas indústrias e infraestrutura associada, não incentivando essas coisas em nosso governo.
A parte que mais gostei foi o capítulo IV (Petróleo! Petróleo!), o ápice da visão de Lobato sobre o projeto, em um texto empolgante de incentivo e adesão ao progresso proposto.
Em linhas gerais, é assim:  o Sítio idealiza o país, Pedrinho e Narizinho representam pequenos empresários lidando com velhos e calejados homens de negócio (se destacando em suas ações), Visconde é a ciência que apoia o progresso (apontando novos caminhos), Emília representa a sociedade que adere ao ideal proposto e Tia Nastácia prefigura o povo simples que é impactado e beneficiado pela economia forte.
Lobato ilustrou também o conservadorismo na disposição turrona de um fazendeiro chamado Chico Pirambóia (resistente à importância dos bancos, no que acabou se dando mal, devido velhos conceitos) e no compadre Teodorico (foi à falência aplicando o capital em projetos por conta própria, sem um aval científico, em outras palavras, caiu em conto do vigário).
Há locais em que se instalaram indústrias petrolíferas que fracassaram (a fazenda do Chico Pirambóia) e isso é tratado como uma possibilidade, mas que não é um quadro comum diante do potencial existente.
Outra coisa que achei interessante, na ideia do Sítio representar o país, é que a história dá um salto para a década de 1950, onde as projeções de Lobato se confirmavam. Vemos o antigo arraial de Tucano como uma cidade grande e desenvolvida, com os picapaus bem sucedidos como empresários.
A história encerra com discursos efusivos de algumas personagens, diante do sucesso. Visconde exalta a Ciência, Pedrinho e Narizinho a avó (uma empreendedora), Tia Nastácia o amor por Dona Benta e pelo Sítio (o apoio ao empreendedorismo), Quindim a liberdade que recebera e Emília propõe um desfile de Triunfo de Dona Benta, referente a um costume na antiga Roma. Certamente, naquela visão ilustrativa de um país, o nosso país, é a perspectiva de progresso e melhoria de vida ao povo.
É um livro utópico, mas que tem algo importante para o progresso isso tem: a visão de economia fortalecida na indústria e no desenvolvimento da infraestrutura.
Grande Lobato! Grande livro! Grande leitura!

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 3

Emília no País da Gramática (1934) - Registro no Skoob em 11/07/2017
Entre a diversão do texto e meu entrave com a retórica gramatical, acabou prevalecendo o segundo aspecto na minha leitura. Não curti. Por mais que o autor tente transformar a Gramática numa brincadeira de descobertas e entusiasmo didático, a obra deixa o carisma das personagens do Sítio em segundo plano (até a Emília está muito passiva) e o que prevalece é uma avalanche de considerações formais e chatas.
Não quero ser imprudente passando a imagem de um livro desinteressante. Nada disso, falo de meus gostos pessoais.
Inicia de maneira empolgante, com o Quindim parecendo que vai dar show em coisas bacanas, mas depois ele some na narrativa, passando despercebido em boa parte. E toma-te retórica!
Gosto da questão da etimologia, significado das palavras e neologismos, mas não me diverti com a forma apresentada. Cá com meus botões, tem parte da Gramática que, embora seja importante, remete a um formalismo maçante, expresso em estudos, por exemplo, da conjugação dos verbos. Uma tabuada retórica de indicativo, subjuntivo, próclise, ênclise e por aí, que nunca gostei.
Algo que desapontou também foi a questão da linguagem coloquial, chamada na obra de provincianismo. Essa temática é sedutora, mas foi pouco explorada e com muito formalismo.
Enfim, Lobato é um de meus autores prediletos por isso não quero me estender em uma resenha negativa. O livro tem sua beleza e é uma obra-prima para leitores muito especiais. Tentei ser feliz na leitura, mas não foi o caso dessa vez.
Uma observação final que talvez despertasse atenção do escritor... De maneira curiosa, ele apresentou a maior palavra da língua portuguesa na época: anticonstitucionalisticamente. Mas agora esta perdeu para pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (cruz credo! boca suja!).

Histórias de Tia Nastácia (1937) - Registro no Skoob em 25/07/2017
Histórias folclóricas em que Lobato procura mostrar, ou entender, as origens e caracterizações comuns. A percepção se dá de maneira informal, como uma aula brincando.
Tia Nastácia é instigada pela curiosidade das crianças em relação ao folclore e desfila seu repertório de histórias, seguindo-se observações da turminha sobre pontos inusitados, fatores que teriam influenciado ou a simples referência se gostaram ou não. Tudo em um clima de descobertas e zoação. Destaques para Dona Benta, em uma participação tipo orientadora pedagógica, e para a Emília em sua habitual espontaneidade, ora inusitadamente coerente, ora maluca, mas sempre carismática. Senti falta do Visconde. Estranho que ele não apareça e justamente em momentos ideais para se destacar...
Sobre as histórias, há aquelas que são surreais, parecendo uma mistureba de informações malucas, oníricas e aparentemente sem lógica, encontradas entre as primeiras no livro. E outras que são curtas e mais atrativas, encerrando gracejos da sabedoria popular ou uma lição.
Nas observações da turminha vemos referências à ingenuidade interpretativa do saber popular, percepção de interferências na narrativa original através da transmissão oral ao longo do tempo, reprodução de um saber que se impõe em ciclo desencadeante de várias histórias para mesmo tema, observação de fator inconsciente inspirado na realidade, adaptação de saberes externos ou apenas brincadeira. Esse fatores se intercalam nas discussões em justificativa para as histórias. Destes, o que chamou mais minha atenção foi a reprodução do inconsciente. Lobato pegou histórias que parecem muito antigas (talvez desaparecidas da oralidade e conhecidas apenas em livros) e as apresenta causando percepção que descamba para a extravagância sem sentido na atualidade, mas que reproduziam algo importante em sua época. Aquilo do inconsciente se vê, por exemplo, na opressão representada por gigantes ou madrastas, e o desejo de libertação difícil muitas vezes toma a forma de algo mágico, como um sonho fácil de resolver...
Ainda sobre as histórias, tem algumas que remontam à minha infância, quando conheci O pulo do gato, O cágado na festa do céu e João e Maria (embora com alterações sutis ou drásticas). Curti estas e outras que para mim foram inéditas, como O macaco e o coelho, O macaco, a onça e o veado e A formiga e a neve. Esta última foi a que mais gostei, tendo desenrolar parecido àquela história cantada de A velha debaixo da cama (para finos conhecedores). Entre as surreais e escalafobéticas do início me chamou atenção O homem pequeno, por ter coisas metafóricas ao D. João, que dá também as caras como personagem.
Achei interessante a dinâmica do livro, mas por outro lado, em que espero ser preciso na colocação, são narrativas que não expressam a verdadeira identidade nacional enquanto histórias folclóricas. O que vem na mente quando falamos de cultura popular? Aí o Lobato me vem com histórias oriundas de livros estrangeiros ou no mínimo adaptadas. Não é a genuína mitologia do pais... Obviamente, tem um contexto aí, pois Lobato foi um dos pioneiros em valorizá-las e possivelmente pautou seu posicionamento no que havia de circulante em termos literários. Ele cita um pesquisador popular e seu livro, subtendendo que talvez tenha buscado inspirações nessa fonte. Em outras palavras, cadê o Boto, os mitos indígenas, cadê o Boitatá, a Cobra Grande (ei! me respeita o cabra que pensar bobagem), cadê a Matinta, o Curupira, o Negrinho do Pastoreio? Bem verdade que dão as caras em outro livro, mas é super estranho não se fazerem presentes nas narrativas da Tia Nastácia, representante maior da cultura popular no Sítio. Fiquei ainda mais convicto que buscava-se um entendimento no contexto de época sobre a caracterização de certas histórias.
Não curti algumas coisas. Na real, o livro aparentemente sugestiona, mas Lobato não deu o destaque merecido à Tia Nastácia. Vemos poucos diálogos em interação dela com a turminha e no final o protagonismo é repassado para Dona Benta, que conta histórias declaradamente estrangeiras, desaparecendo sumariamente a Tia Nastácia de qualquer referência. Ô Lobato! Pisou na bola e não gostei dessa valorização ou falta dela.
Outra coisa, tenho a coleção em edições antigas da Brasiliense e que raios de capa mais infeliz essa! Cadê a Tia Nastácia? Não acredito que preferiram a imagem de um dos contos de menos destaque (Manuel da Bengala). Na coleção antiga da Brasiliense que estou lendo, representada pelas ilustrações das capas, a Tia só aparece de relance na capa de um dos 24 títulos. Pisada na bola esse desprestígio onde ela deveria ser o centro das atenções. Tem uma ilustração muito bonita no meio do livro, deveria ser a capa.
O que não gostei mesmo, principalmente, foi a história do tal bom diabo. Aqui Lobato transparece seu ateísmo e as personagens do Sítio menosprezam, ainda que não seja a intenção, o conhecimento sobre Deus. Em meio a essa situação, achei tocante e singelo o capítulo encerrando com a solitária e desprezada fé em Tia Nastácia. Tem algo ali de sensível que se destaca.
E finalizando, tinha a impressão que era o livro que mais questionavam naquela questão em torno do racismo. Não é, ainda que exista uma ou outra colocação da Emília na conta de sua ignorância.
Ah, é o que vi. Certamente tem outras revelações, mas de minha parte, fui! 


Serões de Dona Benta (1937) - Registro no Skoob em 17/08/2017
A obra foi moderna e inovadora no contexto de publicação, equiparando o saber científico a uma brincadeira de descobertas e admiração para as crianças na exposição informal de Dona Benta. A abordagem passa pelas áreas de física, química, astronomia e geologia. Lobato certamente estudou bastante para conceber.
Particularmente, gostei da parte de considerações sobre a água (onde a vozinha faz uma experiência de condensação, produzindo espanto e entusiasmo infantil de que a problemática da seca seria resolvida com esse processo) e sobre os planetas em um esquema ilustrativo, para ter ideia do Sistema Solar.
Por outro lado, somos da geração de imagens e interações na percepção do saber (trazendo a obra para um contexto atual). Convenhamos, uma aula de ciências naturais só na lábia é um bocado chata. Falo por mim, pois a leitura refletiu isso. Gostei de outras obras com a mesma caracterização, mas eram na área de história e mitologia. Essa não curti. Ademais, a turminha tem uma postura muito passiva. Vemos textos e mais textos de exposição científica e pouca interação da turminha. Visconde não dá as caras e Emília, no geral, tem uma mudez que não é legal, ainda que em bobagens. Em outros livros ocorriam discussões, interferências, opiniões, bobagens, impulsividade. Ah, qual é! Quase só a Dona Benta falando... Enfim, não foi uma aventura como imaginava.
Finalizando, observações banais. Mais uma vez Lobato dá pistas de que Emília tinha virado gente, pois é chamada de ex-boneca e há expressão como do tempo que era de pano. Só não sei onde e como aconteceu essa transformação. É um aspecto banal, mas que me interessa como ardoroso fã do Sítio.
Outra observação, conheci a coleção da Brasiliense na infância A capa dessa edição (na coletânea que tenho) é a única onde aparece a Tia Nastácia, que não foi mostrada nem no livro que leva seu nome, onde deveria haver uma ilustração parecida a esta. Não estou querendo dizer que há alguma mensagem, só uma observação, talvez do fato da maioria dos ilustradores não conhecerem intimamente o conteúdo dos livros, às vezes, nem de forma mínima (falo da capa do livro da Tia Nastácia). Desse jeito são como placas de ruas com erros (tem muito livro por aí nessa também). Af! Tô é escrevendo muita besteira. Fim.  

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Não é tarde demais (Voz da Verdade)

Um louvor que emociona e inspira na busca de superações e renovação em Jesus Cristo, lançado em 1993 pelo Grupo Voz da Verdade.
Feliz Ano Novo! Que a bênção do Senhor esteja sobre todos nós na graça e paz.  Obrigado por sua companhia. Gratidão a Deus por tudo. 


Quando tudo parece perdido
E o mal é solidão
Quando há crise no caminho
Sem se ter a solução
 Quando te faltarem forças, pra viver e pra lutar
Quando você diz pra si mesmo, que é tarde demais
Não é tarde demais, pra quem crê em Jesus
No momento difícil, sentirás suas mãos
Não é tarde demais, você pode ser feliz
Há um caminho seguro, que Bíblia nos diz
Um caminho de paz, um caminho de luz
Um caminho aberto, que é Cristo Jesus
Com Jesus não há crise, pois a vida nele está
Não é tarde demais, você pode ser feliz.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 2

Histórias Diversas (1947) - Registro no Skoob em 06/05/2017
Bela obra! Infelizmente a derradeira na coleção do Sítio do Picapau Amarelo (falo como fã) com coletânea de histórias curtas que exemplificam bem a proposta do Lobato, da seguinte maneira: o livro tem 14 narrativas, evidenciando momentos em que o autor traz personagens famosos do imaginário infantil para interação com as crianças, inserindo estas no mundo de diversão e aprendizagens na literatura, ciência, história, folclore, aspectos em evidência na época, natureza, mitologia grega, modernidade, entre outras coisas para serem descobertas na empolgante leitura. Tem um pouco disso tudo, destacando-se, em minha visão, uma narrativa cabal no paralelo que fazem entre Lobato e o racismo. Sobre isso acredito apenas em equívocos de contexto que poderia ser melhor trabalhado.
Me diverti bastante e vão aí alguns registros:
- As botas de setes léguas - Pequeno Polegar percebe que o problema que tinha não era tão grande assim. Vou até escrever a última frase: "Incrível que haja no mundo quem se aperte por tão pouco..." (frase de Emília, a Marquesa de Rabicó).
- A Rainha Mabe - Aquele momento de instigar a criançada na literatura e mitologia clássica. Dona Benta fala um tiquinho de A Tempestade (Shakespeare, meu filho) e pega um gancho em Romeu e Julieta para falar sobre a Rainha Mabe (uma fada relacionada à realização de sonhos - não sei mais que isso e toma-te Shakespeare de novo na inspiração da narrativa).
- A violeta orgulhosa - O texto mais curioso. Essa história, teoricamente relacionada ao orgulho vão, nas entrelinhas é um manifesto contra o racismo. Avalie aí... Uma flor branca nasceu em um canteiro de roxas, é chamada de Ariana e passa a menosprezar as outras julgando-se superior e melhor. No desdobramento leva uma senhora lição do Visconde e Emília, que tem argumentos que levantam a autoestima das flores menosprezadas e acabam com as pretensões de visão superior da Ariana.
Pensei em fazer ratificação à uma colocação científica do Visconde nesse conto (rapaz, do Visconde!), mas não vale a pena diante da mensagem maior do texto.
- A segunda jaca - Valoriza o folclore, trazendo a sacizada de volta para as aventuras. E ainda tem uma presepada que ocorre com a Emília (a mesma que ocorrera em outro momento com o Visconde). Acho que o Lobato quis quebrar um pouco a pose de boçalidade dela.
- A reinação atômica - É também curiosa e reflete ecos da bomba atômica, a essa altura conhecida pelo mundo em suas famigeradas detonações. Emília faz uma rápida visita a um local de testes, em segredo, e começa a ficar careca, o que fez o Visconde direcionar para radiação. Acho que era o contexto de medos e especulações no mundo, e o Lobato não deixou de mostrar isso para as crianças, que de um jeito ou outro tomavam conhecimento. O que se explicitou foi o terror que causavam, a ponto de coisas apavorantes (como árvores retorcidas). A história também tem uma cena muito bonita entre a Tia Nastácia e a Emília (não esqueçamos que foi o último livro sobre o Sítio).
Essas são algumas histórias e as outras tem também aspectos curiosos: Pedrinho cogita da Emília ser uma Fada; Lobato deixa uma história incompleta (O Centaurinho) que parece introdução para futuras aventuras; um paralelo entre sagacidade e ingenuidade diante de histórias espetaculosas (ocorrida entre Dona Benta e Tia Nastácia); personagens da cultura americana em projeção (Pato Donald e Mickey); fantasia; teatro, etc e tal.
Ah, tem uma coisa que preciso entender. A Emília é citada como ex-boneca. Eita! Em algum momento ela humanizou, tipo o Pinóquio. Será que dá para descobrir onde, na coleção...
O último Sítio do Pica Pau Amarelo... Ô dó! Não sabia (ou lembrava) quando escolhi para leitura.
Cada vez que leio só aumenta meu gosto por essa coleção. Lobato marcou muito e fico invocado quando, naquela pergunta de citar autor nacional, o povão muitas vezes (não estou generalizando e nem desmerecendo) vai no modismo de rasgar a seda para Machado, Alencar, Jorge Amado, Graciliano, mas às vezes não conhece seus livros intimamente, enquanto sabe muita coisa do Sítio e foram impactadas na infância por ele, sendo instigadas em interessantes histórias ou impulsionadas para a leitura. Aí o Lobato, que não é muito citado por polêmicas da atualidade, quando é, vem alguém e o resume ao racismo. Ah, vai se lascar! O que vemos em sua obra? O que revela?


A Chave do Tamanho (1942) - Registro no Skoob em 26/05/2017

Grandiosa obra de Lobato, publicada em período recente após bombardeio em Londres na Segunda Guerra Mundial. O fato foi citado no início, impactando e inspirando a Emília na busca de uma solução para a guerra, gerando essa aventura que metaforicamente tenta mostrar a origem dos conflitos. Porquês que certamente são primeiros e essenciais passos para se buscar o apaziguamento.
Há aprendizagens que se fazem notar (ou se dá importância) apenas pela experimentação. Por isso Lobato sujeitou a humanidade, indistintamente, à percepção de sua pequenez e fragilidade, de maneira literal e conclusiva para a necessidade de união e acordos para sobrevivência. Essa é a mensagem principal de A chave do tamanho e na falta dessa sensibilidade encaminham-se as guerras.
O livro é espetacularmente surreal, com várias possibilidades de interpretação. Emília é como Alice em um País de Maravilhas (ou terror - ambas possibilidades por conta do inusitado), é Robson Crusoé em um mundo de adaptações para garantir a sobrevivência, é Gulliver na terra dos gigantes, é a humanidade consciente de sua fragilidade, atenta para a busca de união e acordos para a manutenção da vida.
A história tem aventura, suspense, terror, filosofia, política e humor em diferentes momentos (à critério de avaliação do leitor). As partes que mais chamaram a atenção foram o entusiasmo e encanto com a natureza no início (ilustrado pelo idílico pôr-do-sol de trombetas - ô Lobato, que escolha sua na vida, pois manifestou-se aqui o Salmo 19); a visão turrona e cega do major e família na aproximação do "Manchinha" (episódio assustador, crítico à percepções de  conservadorismo); a revolta contra o Homo sapiens, quem mais atrapalhava a existência dos bichos (leia-se a natureza ou a vida); a visitação à Alemanha e Japão, onde Emília encontra o Grande Ditador e o Imperador, apesar de não revelar nomes (nos dois momentos há divagações sobre a pequenez e mesquinhez da ambição humana); o encontro com o coronel Teodorico (momento hilário); o repúdio ao fogo, mostrado como grande destruidor (parece uma alusão às bombas, pois Emília fala de explosões e chamas destrutivas em Londres), Essa última referência é muito interessante, com um diálogo onde a boneca vê o fogo em uso pessimista e certo cientista mostra benefícios para a humanidade (nas entrelinhas, questionamento sobre direcionamentos em impactantes invenções). E o livro tem também uma discussão sobre a nova ordem mundial gerada pela aventura, onde tudo se decidiria democraticamente (todos precisam de ajuda mútua para a sobrevivência).
Legal! Uma leitura instigante, curiosa e genial para diferentes leitores. Se fizessem um filme seria sensacional.
Nos registros para a cronologia do Sítio, relata a morte do Tio Barnabé e, brincando com a fantasia criada por Lobato, por quê Emília foi afetada pela chave do tamanho, já que era boneca e só a humanidade seria afetada? A-há! É uma das últimas obras do Sítio e na última o autor diz que ela havia se tornado gente.
Leitura altamente prazerosa, ilustrando também o porquê da Marquesa de Rabicó ser uma das mais carismáticas personagens da Literatura Brasileira.

História das invenções (1935) - Registro no Skoob em 29/06/2017
Uma das obras no ápice da proposta educativa de Lobato na idealização do Sítio, publicada em 1935. Em linhas gerais, é um livro de história esmiuçando informações curiosas, reveladoras e instigantes para jovens leitores.
Mentes tacanhas podem dizer que Lobato foi oportunista, mas os fatos apontam um educador atualizado com as novidades de momento ao adaptar um livro recém lançado e de destaque no cenário mundial para o universo do Sítio do Picapau Amarelo. O livro em questão é "História das Invenções - O homem, o fazedor de milagres", do historiador Hendrik Van Loon, até hoje valorizado para estudos. Curiosidade à parte, vasculhando um pouco a net, percebi que esse autor explorou temas sobre as artes, história, educação e também investigação bíblica (aspecto que Lobato praticamente descartou).
Encontramos elementos reconhecíveis em outras obras da série, com valores do presente em paralelo com aprendizagens no passado, além de perspectivas futuristas. Tudo com criticidade em sacadas sutis. Repetitivo dizer, mas o autor era muito antenado com seu presente e procurava difundir as informações.
O conhecimento desenrola-se na prosa encabeçada por Dona Benta, que traduz o livro de Hendrik. O predisponente foi os chuvosos dias no mês de fevereiro, que levaram a garotada a buscar novas aventuras, descobertas nas narrativas da Vó, em suas elucubrações (estou estreando essa palavra em meu vocabulário, que aprendi outro dia ouvindo um orador que admiro, e se não sabes vai aprender também).
Espaço para nostalgia... Vivi a época de visitações de vendedores de livros nas casas, quando traziam malas recheadas de obras que impactavam. Eram como Marco Polo contando novidades para seus ouvintes, se preferirem pode ser também uma Sherazarde, e acho que o embevecimento provocado, que também sentia, devia ser o que Pedrinho e companhia experimentava com as histórias da Dona Benta (opa! mais uma palavra que aprendi com o mesmo orador, percebestes qual?).
Ponto em comum nas histórias sobre as invenções é que a simpática velhinha destaca a necessidade em paralelo com a criatividade. Norteadores do progresso.
O que achei legal mesmo, foram as inferências (ca-ham!) de Lobato no desenrolar de alguns fatos. Olha! Mais uma vez ele mostra seu lado visionário e projeta nova guerra, quando fala do desenvolvimento das armas para fins bélicos e a crise de momento. Era o uso da lógica. Outro momento de criticidade é quando mostra o medo como desencadeante de mecanismos de proteção em aparatos inventivos.
O texto mais interessante foi o capítulo VII (Últimas mãozadas) que tem criticidade fantástica. Entre outras coisas, Dona Benta fala de eras glaciais como motivação ao progresso humano na busca de sobrevivência (algo positivo nascido da catástrofe em mecanismos de desenvolvimento), o que não se observa com a catástrofe da guerra (motivacional ao desenvolvimento de coisas terríveis na história humana). O capítulo é muito interessante. Só lendo...
Enfim, gostei, me diverti e embalei pensamentos. Chamo a atenção que requer leitura pausada. Foi assim comigo, acostumado a ler o Sítio, às vezes, em um dia. Agora tive que ir em marcha lenta ou o encanto que poderíamos encontrar se transformaria em algo chato. Não sei se expressei bem a ideia nesse ponto, mas é um livro de alimento mais sólido, para degustação tranquila. Pode crer!
 

E tem mais...