As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

domingo, 5 de junho de 2011

LENDAS DO AMAPÁ - A BACABA

Luta de Bacabá com Catamã. O índio enfrentou
o feiticeiro para livrar sua tribo...
Contam as lendas que na Serra do Tumucumaque existia a tribo dos Badulaques, pequena e fraca, sem muitos guerreiros e cujo chefe, cacique Cabaíba, preferia viver em paz sem invadir as terras de outras tribos. Era considerada uma tribo sem valor e por isso não participava do Grande Conselho das tribos.

Um dia a desgraça se abateu sobre todas as tribos da serra. Poucos se lembravam da grande batalha travada entre o deus Tupã e Catamã, a entidade do mal. Contavam os anciãos que, na batalha, tinha sido devastada uma grande área além da Serra do Tumucumaque e que a luta entre o bem e o mal durara muitas luas até que Tupã, usando de toda sua magia, conseguira aprisionar Catamã no topo da serra por um período de cem anos.

Diziam ainda os anciãos que depois desse tempo de guerra, a fome e a doença atingiriam as tribos, prenunciando a volta de Catamã, que tentaria reerguer seus domínios por toda a terra, mas que um guerreiro, nascido em tribo pequena, se sobressairia dentre todos os seus irmãos em caçadas e lutas, podendo vencer o mal e lançá-lo novamente à sua prisão. Os prenúncios da desgraça chegariam quando Catamã já tivesse cumprido três terços de seu exílio, e assim ocorreu.

Primeiro uma grande doença se abateu sobre as tribos. O mal atacava principalmente os pés e as mãos, impossibilitando os guerreiros, assim como mulheres e crianças, de se locomoverem. Logo não puderam mais segurar o arco e a flecha para caçar e centenas morreram de fome.

Depois vieram as guerras. Tribo contra tribo. As mortes se sucedendo e as nações indígenas enfraquecendo-se cada vez mais. Na época também a tribo dos Badulaques foi atingida e muitas mulheres morreram. Tarirã, uma das esposas do cacique Cabaíba, estava grávida de muitas luas e o cacique temia que fosse atingida pelas pragas ou morta pelas lanças dos guerreiros inimigos. Numa noite Tupã foi até o cacique e em sonhos disse-lhe:
- Teu filho será um bravo. Irá se sobrepor à todos os guerreiros e se chamará Bacabá. Somente ele poderá livrar a nação do mal e destruir para sempre a encarnação da perversidade.
 
PARNA Montanhas do Tumucumaque
Por três noites os membros da tribo dançaram, agradecendo a dádiva de Tupã. Duas luas depois nasceu o menino, que cresceu e foi treinado nas mais diversas práticas de combate, assimilando com incrível facilidade os ensinamentos dos pajés e anciãos. Manejava o arco e a flecha como se tivesse nascido para caçar. Sua grande vitória foi quando o conselho o designou chefe de todas as nações indígenas.

As maldições de Catamã continuavam. Certa noite um feiticeiro apareceu na forma de um feroz cachorro do mato e entrando na tenda do chefe matou Tarirã, que já se encontrava em idade avançada. Pela manhã o corpo da índia foi encontrado dilacerado e Bacabá, furioso, entoou seu canto de morte, que atravessou os vales. Estava iniciado o confronto.

Pela manhã, Bacabá reuniu-se com o Grande Conselho, anunciando que iria enfrentar Catamã no topo da serra. O pajé, tocado pelo deus Tupã, deu-lhe um saquinho de couro contendo a mistura de muitas ervas, que deveria ser jogada no olho da divindade, tornando-a cega. Depois de despedir-se de seus irmãos de sangue, Bacabá armou-se de uma lança, arco e seus apetrechos de guerra e saiu no rumo da serra. Quando alcançou o topo, a figura de um imenso cachorro do mato atravessou-lhe à frente. A fera, com olhos injetados de sangue investiu contra o índio, iniciando uma batalha. Embaixo, milhares de guerreiros assistiam a tudo. Tupã proveu Bacabá de poderes para fazer frente à divindade do mal e o local da batalha transformou-se em uma imensa clareira. Contam os índios mais velhos que a contenda foi terrível. Durante duas noites o confronto prosseguiu e depois o silêncio foi total. Os guerreiros, temerosos, esperavam que o vencedor se manifestasse. O silêncio, no entanto, reinava no cume da Serra do Tumucumaque.

... e da sepultura de Bacabá nasceu a bacabeira
O cacique Cabaíba reuniu seus bravos e subiu à serra, seguindo os rastros de destruição, até que sobre um amontoado de pedras encontraram um imenso cachorro, com os olhos arrancados e uma lança cravada no peito. A seu lado o corpo do guerreiro, dilacerado pelas garras e dentes do monstro. Bacabá venceu, mas a façanha lhe custou a vida. Seu corpo foi sepultado ao lado da mãe, em um cortejo que reuniu milhares de guerreiros, todos lhe prestando a derradeira homenagem.

Muitas luas se passaram até que o cacique Cabaíba, sentindo a perda do filho, foi vê-lo. No local onde tinha sido sepultado, havia, por benevolência e homenagem de Tupã ao mais bravo guerreiro da face da terra, uma palmeira solitária com as folhas em forma de lanças, da qual sobressaíam-se flores de cor branco-amarelo e frutos pequenos avermelhado-escuros. O chefe Cabaíba recolheu os frutos e mandou as mulheres da tribo fazerem um vinho que chamou de bacaba. Da bacabeira, de caule forte, como os braços do guerreiro,são feitos arcos e lanças, que, dizem as lendas, serem abençoados por Tupã.
  
Fonte: Texto extraído do livro "Amapá, cultura, poesia e tradição" de Maria Vilhena Lopes & Deisse GemaqueValente Andrade / Edição de 1997).