As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

sábado, 23 de maio de 2015

"A Jari e a Amazônia" - Cristovão Lins

O livro Jari - 70 Anos de História, de Cristovão Lins, trouxe um relato histórico da região, vendo-se as fases e suas características, com destaque ao período de Ludwig (1967 a 1981). 

Nessa segunda obra, A Jari e a Amazônia,  publicada em 1997, a abordagem trata do desenvolvimento aliado a questões ambientais. Ponto que começou a ser ressaltado entre as décadas de 80 e 90, e que estava em paralelo com muito desconhecimento, principalmente manejo não sustentável em práticas rotineiras, como a pesca e caça predatória. A região do Jari é rica em recursos ambientais, aproveitados inicialmente com a cultura extrativista e atualmente por  grandes empreendimentos (como o do caulim - considerada esta uma das maiores minas do mundo - e a fábrica de celulose). Exploração e sustentabilidade, aspectos vitais para a Amazônia em seu desenvolvimento, temática na obra.
 
O autor inicia com o resgate de pontos históricos da região em uma percepção socioambiental. Veja aí algumas delas:
A fase do José Julio poderia ter sido mais proveitosa para a população, e com menos gastos para o coronel, se tivesse aproveitado a estrutura que já havia em Almeirim. O que se viu foi uma centralização em Arumanduba que requereu muitos investimentos para a infraestrutura. Na fase dos portugueses a caça predatória foi usada na obtenção de lucros com o comércio de peles, e na do magnata Ludwig alguns erros do passado se repetiram, consumindo muito investimento para manutenção das silvovilas do Projeto Jari. E ainda ficaram em situação isolada para satisfação de suas necessidades e déficits, como o energético (uma parte disso motivada pela resistência do governo militar em propagandas negativas que levavam a questão ao imperialismo norte-americano e assim entraves eram criados. Beiradão, exemplificando, segundo o autor poderia ter sido também uma silvovila, mas o projeto enfrentou a resistência do governo territorial da época). Essa história vai longe e o Projeto Jari teve seus acertos e erros. Os capítulos VII, VIII e IX falam disso. 

Para ter uma visão mais abrangente, olha aí o sumário:
Capítulo I - A região do Jari na época da colonização
Capítulo II - A saga do Coronel José Júlio de Andrade
Capítulo III -  A expedição alemã ao Jari: cintífica ou com outros fins?
Capítulo IV - Ludwig, Azevedo Antunes e a Jari
Capítulo V -  Como surgiu a Jari de Ludwig
Capítulo VI - Lendas, Costumes e Histórias do Jari
Capítulo VII - O Extrativismo na Amazônia
Capítulo VIII - Extrativismo x Produção Intensiva
Capítulo IX - A Energia na Região do Jari
Capítulo X - A evolução sócio-econômica da região
Capítulo XI - Pequeno Modelo Produtivo para as Várzeas da Amazônia

O livro tem conotação de valorização ambiental e humana. Assim, gostei também das histórias reveladas sobre a população local.  As narrativas do folclore são muito atrativas, como a do Mapinguari e Cobra Grande, além de relatos de moradores em sua compreensão (ou incompreensão) sobre a natureza e seus mistérios. Um imaginário pelo qual me interesso, com as histórias de onça no cio, tamanduá cantante, macaco devorador de gente, etc. 

A obra aborda também a fundação de Monte Dourado. Relato interessante. 
Na imagem a localidade de Olho d'Água (em 1967), vendo-se o primeiro posto médico construído. Esse local corresponde hoje ao porto de Monte Dourado.
A fundação da vila é considerada em 25/05/1967, quando Rodolpho Dourado (engenheiro paraense contratado para a construção da vila) e seus companheiros desembarcaram. A imagem mostra o transporte de materiais para a construção dos primeiros acampamentos (1967). A vila foi batizada em conversa informal por amigos de Dourado. Tempos depois os americanos da Jari tentaram mudar para Monte Belo, pois histórias circulavam negativamente em Brasília de que estavam levando ouro para os EUA e o "Dourado" teria essa conotação de riqueza mineral. Após uma verificação, chegou-se a conclusão da referência ao engenheiro.
Em 02/05/983, através de Lei Municipal Nº 5.075, foi criado o Distrito de Monte Dourado, ligado a Almeirim, embora a data da criação da vila permaneça em 25 de maio.
02 de Maio de 1983 através da Lei Municipal nº 5.075 foi criado o Distrito de Monte Dourado, muito embora a data de sua fundação seja de 25 de Maioaluguel santos
em 02 de Maio de 1983 através da Lei Municipal nº 5.075 foi criado o Distrito de Monte Dourado, muito embora a data de sua fundação seja de 25 de Maio. aluguel santos
em 02 de Maio de 1983 através da Lei Municipal nº 5.075 foi criado o Distrito de Monte Dourado, muito embora a data de sua fundação seja de 25 de Maio. aluguel santos

Descobri algo muito legal. Finalmente entendi a etimologia da palavra Jari. Vem da língua indígena Wayãpi e significa rio das castanhas (Nhá = castanha e rim = rio). 

A expedição alemã (1935/1937) é novamente mostrada. Algo nebuloso paira aí e não duvido dos interesses nazistas de olho grande na região, ainda mais que queriam traçar um caminho até a Guiana Francesa, seus inimigos em guerra.
Outro ponto que mostra a linha de pensamento do livro foi sobre a construção da Hidrelétrica de Santo Antonio. Na época de Ludwig não teve a licença dos militares e via-se no projeto um impacto ambiental grande, típico de empreendimentos sem uma visão mais atenciosa aos interesses ambientais, mas apenas a da meta do empreendedor. 
O déficit energético sempre foi uma grave problema para as aspirações do desenvolvimento e o autor levanta a questão e necessidade, vendo-se nos anos 90 reformulações. Naquela época foi estabelecido um projeto que apontava uma usina com menos impactos, ao estilo fio d'água, como hoje está em construção (necessária como desejava Ludwig, mas com um novo estilo em voga no mundo atual)
Curiosas abordagens no livro, que não se resumem a isso. 

A Jari e a Amazônia. A região rica e as possibilidades de exploração. Questões ambientais e a exploração racional. 

O Livro é:
Título: A Jari e a Amazônia
Autor: Cristovão Lins
Editora: DATAFORMA
Páginas: 160
Ano: 1997
Temas: História / Projeto Jari

 Disponível para consultas nas principais bibliotecas em Macapá.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Belas obras de Wagner Ribeiro

Diz aí, não são maneiros esses quadros? Com toda certeza, mostrando o talento de Wagner Ribeiro - Artista com  percepções interessantes de Macapá em paisagens antigas e atuais. Algumas são baseadas em fotos históricas. Registrei na Praça Floriano Peixoto no Dia do Trabalho/2015.

O Curiaú, vendo-se o Centro Cultural (Acrílica sobre tela - Wagner Ribeiro, 2015)
Fortaleza de São José de Macapá (Acrílica sobre tela - Wagner Ribeiro, 2015)
Mercado Central (Acrílica sobre tela - Wagner Ribeiro, 2015)
Veja a inspiração e detalhes históricos em  porta-retrato-ap.blogspot.com.br
Doca da Fortaleza de Macapá (Acrílica sobre tela - Wagner Ribeiro, 2015)
A inspiração

Curta mais do artista em:


Contato: wagnerribeiro59@hotmail.com

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Duas obras sobre Cabralzinho na Literatura Amapaense

Quinze de maio está marcado na história do Amapá. A data relembra o fatídico episódio de 1895 na Vila de Espírito Santo do Amapá, quando soldados franceses, de forma cruel e arbitrária, massacraram e incendiaram o povoado, resultando na morte de 38 pessoas.  O fato foi desencadeado pelo embate entre Cabralzinho e o capitão Lunier, que resultou na morte do segundo e na maior chacina ocorrida nestas terras. Fatos tristes e determinantes para a questão do Contestado Franco-Brasileiro, com parecer favorável ao Brasil em 1900. Ensejo para a sugestão de duas obras encontradas nas principais bibliotecas em Macapá, além de links adicionais para uma leitura mais esclarecedora sobre essa história.

"Cabralzinho - A construção do mito de um herói inventado na sociedade amapaense" (Diovani Silva e Jonathan Viana, 2012)

Título: Cabralzinho - A construção do mito de um herói inventado na sociedade amapaense 
Autores: Jonathan Viana / Diovani Silva
Editora: Schoba
Páginas: 244
Ano: 2012
Temas: História do Amapá / Francisco Xavier da Veiga Cabral
ISBN: 978-85-8013-161-1 

O livro faz uma análise da figura histórica de Cabralzinho e dos motivos que o definiram como herói no Amapá. Vemos um paralelo entre suas ações, a significância atribuída pelos interesses republicanos e a representatividade que tem atualmente no Amapá. 
Está organizado em três partes:
A primeira faz a contextualização histórica da área de disputa entre Brasil e França (O Contestado). Litígio secular que culminou no fatídico combate de 15/05/1895 na Vila de Espírito Santo do Amapá. A região apresentava riquezas, era alvo de aventureiros e tinha intervenções dos dois países para sua anexação, apesar de acordos internacionais para manter a neutralidade. Os eventos ocorridos na data foram decisivos para a resolução do impasse, onde as ações de Cabral o tornaram mito e foram ideologicamente favoráveis ao ganho de causa pelo Brasil através do Laudo de Berna (1900).
Na segunda parte os autores discutem o heroísmo de Cabral e os interesses da nação. Historicamente ele era monarquista e foi elevado a herói republicano. No conflito em que foi mitificado por matar o capitão Lunier (militar francês que veio ao Amapá com um pelotão para prende-lo com álibi de ter detido um brasileiro que era submisso aos franceses, o Trajano) fugiu para o mato, deixando a população onde foi eleito líder à mercê dos franceses. Isso resultou em uma chacina (vingança francesa) que vitimou mulheres, crianças e velhos, com cerca de 40 mortes e várias casas incendiadas. Uma arbitrariedade e ilegalidade em relação a diplomacia. 
Francisco Xavier da Veiga Cabral
Pode até ter sido estratégia de guerra e de sobrevivência a retirada de Cabral, mas por conta disso muitos morreram e outros lutaram a seu favor, sem reconhecimento na história. Esse é o ponto questionado de suas ações na obra, que foram mitificadas pela República em heroísmo exemplar e sugestionando a soberania da região para o Brasil. A França usou o fato para querer ser mais ostensiva na região e o Brasil apresentou laudos da presença mais intensa e desejosa de soberania brasileira, onde Cabral era o herói e representante maior dessa população em suas aspirações.
Na terceira parte vemos a representatividade de Cabral atualmente. Dada a sua importância, historicamente é pouco reconhecido ou celebrado no estado onde figura como herói, aparecendo no imaginário popular, às vezes, como piada pela fuga para o mato e manobras políticas.


(Francisco Rodrigues Pinto, 1998)

Título: Cabralzinho - O Herói do Amapá
Autor: Francisco Rodrigues Pinto
Editora: Edição do autor
Páginas: 65
Ano: 1998
Temas: Cordel / História do Amapá / Francisco Xavier da Veiga Cabral

A obra é interessante com a história na linguagem do cordel. Vemos informações de cunho popular baseadas em relatos de moradores, fruto da pesquisa do autor.
O Cabralzinho figura como um herói celebrado em versos até engraçados. Imagina o cidadão chamando o capitão Lunier de "cara de coatá" (e coisas do tipo) e escapando com bravura de uma saraivada de balas, por mais de uma vez, evocando justiça em Deus, como é comum no heroísmo popular. Isso e outras coisas são mostradas. O Trajano (álibi da invasão francesa), por exemplo, ao ser recolhido pelos franceses está todo defecado de medo, e os soldados aparecem apavorados diante da bravura dos amapaenses. Evidentemente, são exageros e gracejos pertinentes à Literatura de Cordel, cheia de liberdades poéticas ousadas e sagazes.
Mas não pense que o cordel é só sarcasmo. A parte da chacina é apresentada até com os supostos nomes das vítimas, em uma visão aterradora de como aconteceu. Dramaticamente impressionante! D
atas e motivações aparecem com alguma precisão. A parte que Cabralzinho correu para o mato, deixando a população sujeita aos invasores, sempre questiona seu heroísmo, pois sobreviveu, também, a custo da morte e empenho de muitos.
Ilustração do Cordel
O autor é um apaixonado pela terra e a exalta também em sua beleza natural, lendas e locais históricos. A obra é ilustrada com imagens da localidade. As pretensões franco-brasileiras também são evidenciadas, como a República Cunani (estabelecida em Calçoene para atender os interesses franceses) e o Triunvirato (onde Cabralzinho era um dos líderes e favorável à soberania brasileira). 
Gostei da obra, que tem visão popular de valorização histórica e da terra. 
Vale uma conferida!

"Inspira-me, Senhor
Nesta hora em poesia
Abre a minha memória
Com a tua sabedoria
Vós sois o meu mestre
Toda hora e todo dia
Meu Jesus de Nazaré
Creio em vós com muita fé
Na tristeza e na alegria.

Leitor eu vou escrever
Uma história real
A bravura de um herói
No Território Nacional 
Você agora vai saber
Quem foi Francisco Xavier
Chamado Veiga Cabral..."

E aí! Estudando sobre o Cabral ou querendo saber algo mais? Essas obras vão lhe ajudar. Em Macapá, estão disponíveis para leitura nas Bibliotecas: Elcy Lacerda, Ambiental da SEMA, SESC-Centro e SESC-Araxá.


Para conferir também:

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Coleção Viagens de Zé Mururé" - Editora Estudos Amazônicos

Ulha, só! Mas que livrinho paidégua, sumano! Só o açaizão du grussu!
Mostra as aventuras de um caboco, de graça Zé Mururé. Vou te contar! Além do piqueno ser sabido da conta, tem um batelão porreta batizado de Juvêncio. É com ele que vive pra cima e pra baixo pelos rios da Amazônia, transportando mercadorias e visitando as comunidades. Paresque mora em Porto Cheiroso, pelas bandas do Pará, conhecendo estórias e apresentando a rotina do povo sacudido que são os ribeirinhos da Amazônia. Eita pau! Tem cada estória bacana! Hunrrum, nem te conto meu mano! E tu duvidas é?
 


Na aventura "A Boiuna e a Moça" o Zé Mururé tem que ajudar uma piquena embuchada, amiga de uma tia. Pota merda, aí pegou! A muleca tá é malacafenta e mundiada pela Cobra Grande. Pra quebrar esse encanto, o Zé tem que dar um desdobro pra colocar uma flor e um pouco de leite de gente na boca da Boiuna. A gita velha, não! A ficela promete... Arrupia, mano!
Poxa vida! Por essas e outras que gostei do livro, que tem muita verdade e carisma do Norte. E num é? Com texto nos trink's de ADRIANA CRUZ e ilustrações caquiadas de ALLAN BITTENCOURT e BRISA NUNES


Título: A Boiuna e a Moça
Coleção: Viagens de Zé Mururé
Autora: Adriana Cruz

Ilustrações: Allan Bittencourt / Brisa Nunes
Editora: Estudos Amazônicos 

Páginas: 20
Ano: 2012
ISBN: 978-85-64540-52-1

Temas: Literatura infantojuvenil / Amazônia / Lendas 

Ah, esqueci de falar que o Zé tem um amigo bruguelo chamado Miguel, pra quem conta esses causos, porque ele gosta de ouvir. Que nem eu! 
Égua, não, olha, égua, não! Gostei muito do livro. Simples, curtinho e paidégua demais! Vou logo é sugerir outros da série da Editora Estudos Amazônicos para quem curte mitos da Amazônia. Para os amigos professores também!