As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Margem esquerda do Amazonas - Macapá (Amiraldo Bezerra)

O Amapá tem algo singular em sua produção literária, grande parte das obras estão na categoria de poesia ou contos. Sinto falta da prosa, de romances que sejam conhecidos regionalmente pela identidade marcante e reconhecível ao Estado. As iniciativas nesse campo são poucas e, invariavelmente, desconhecidas até mesmo da maior parte da população amapaense. Lamentável que se inclua nisso nossas escolas.  Ainda assim, encontramos algumas obras que tem sua relevância e aspectos interessantes para serem conhecidos. Quer comprovar? Vamos conhecer então mais uma delas. Simbora!


Ah, o livro da vez é A margem esquerda do Amazonas - Macapá, do Amiraldo Bezerra, publicado em 2008. Como será, hein? 
A obra é repleta de histórias e causos da antiga Macapá. Amiraldo construiu uma crônica de costumes de época, tornando-se a principal testemunha. Registrou a maneira pela qual as pessoas sentiam e se relacionavam, seus costumes no período de criação da cidade, comportamentos e tipos sociais, que com o tempo foram esquecidos. Escreve como se falava, mantém a gíria, o jeito de falar. Saudoso, às vezes critica, às vezes ironiza. Com o seu livro, Amiraldo não nos deixa morrer
Poxa! Bacana e instigante essa apresentação, mas não são palavras minhas. Dei uma colada básica do que o escritor Leão Zagury escreveu sobre ela. Foi o bastante para despertar minha busca.

Informações do livro: 
Título: A Margem esquerda do Amazonas - Macapá
Autor: Amiraldo Bezerra
Editora: Premius
Ano: 2008
Páginas: 272
ISBN: 978-85-7564-420-1
Tema: Amapá / Romance

Gosto de associar as leituras, quando possível, a um momento ou tema favorável e assim, por ocasião do aniversário de minha cidade fiquei entusiasmado para a leitura dessa obra. É um romance urbano narrado em primeira pessoa com ambientação em Macapá (está claro na capa, ô pateta!). É, mas não se trata dos tempos atuais, o romance nos remete aos anos sessenta (mora, bicho!), onde o autor misturou lembranças e experiências, embalado por certos aspectos reais, para contar a história de Rui e Virna.
Imaginamos sempre a cidade em um contexto de vilarejo e pouco desenvolvimento em seu início como capital, onde a maioria da população vive em condições muito humildes (o que historicamente está correto), mas o autor, destoando um pouco disso, optou por apresentar a história de jovens com famílias bem sucedidas e frequentadoras da alta sociedade. É o que vamos encontrar no romance, com o relato do cotidiano de uma vida burguesa que, em certos aspectos, foi a realidade de alguns. Há um detalhamento interessante em ambições e costumes dessa vida social para o leitor mais atento.
A personagem principal, Rui, tem dois momentos: a trajetória de sucesso de sua família (que teve início nesta cidade semelhante ao de muitos migrantes de ilhas paraenses - um retrato de época - mas com oportunidades de trabalho que foram bem sucedidas) e seu romance com Virna (trama com surpresas, reproduzindo o pensamento daquela juventude em busca de afirmação e quebra de tradições).
Interessante também que o autor, no início do livro, reúne uma série de causos e histórias da cidade que familiarizam o leitor àquela época. Boa introdução para o romance. Não sei qual o limite da ficção e realidade, mas são histórias ora curiosas, ora divertidíssimas. 

 
Caixa de Cebola, o primeiro ônibus de Macapá.
Fonte: porta-retrato-ap.blogspot.com

Ri muito com o causo do antológico e famigerado Caixa de Cebola, o primeiro ônibus de Macapá. Será verdade aquela patacoada que ocorria em relação aos sa... Ah, mas não vou te contar, mesmo! Lendas urbanas (ou será que não?) para uma boa leitura. 
A cidade e a sociedade de época se revelam em muitas coisas, em realidade e ficção. Tem aspectos curiosos que já ouvi falar, como uma madeireira na Ilha de Santana ou um bordel lá no final da rua Leopoldo Machado. Famoso em seu tempo.
 
E assim temos aí mais um belo livro. Um romance de agradável leitura, com pitadas de interessantes descobertas da morena cidade A MARGEM ESQUERDA DO AMAZONAS.


Aí vem os papos de sempre. Não custa lembrar...
A obra pode ser consultada no acervo da 
 Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia
 
Macapá - Bairro Central

terça-feira, 19 de abril de 2016

Por dentro das Amazônias (Nilson Moulin)

Uma viagem pela Amazônia! É o que propõem essa obra, que une um texto informal, ricamente ilustrado, com aspectos curiosos da história, geografia, sociologia e meio ambiente da região. Posso dizer que é daquelas que estimula leitura de única vez, pois assim foi a minha relação com a obra.
Nela, o leitor terá acesso a acontecimentos importantes, como: a invasão estrangeira no início do século XVI; os ciclos da borracha, gado, ouro em Serra Pelada, ferro, etc; as tentativas de levar o desenvolvimento através de projetos faraônicos (Ferrovia Mad Maria e Rodovia Transamazônica) e as lutas pela preservação da floresta, dando-se ênfase ao desenvolvimento sustentável. Além de curiosidades da floresta expressas em seus animais, frutos, tribos indígenas e outras peculiaridades mostradas em diferentes olhares. 
Nas últimas página, o leitor encontrará uma relação de notas sobre a Amazônia, onde poderá aprender de forma mais aprofundada sobre a história da região, sua biodiversidade, gestão ambiental, miscigenação e outros pontos.

O autor, Nilson Moulin, é um capixaba que tive oportunidade de conhecer em um evento em Macapá, Expofeira 2012, onde despertou uma curiosidade flamejante com a apresentação do livro.  

Informações do livro:
Título: Por dentro das Amazônias
Autor: Nilson Moulin
Editora: Studio Nobel
Ano: 2008
Páginas: 96
Tema: Amazônia / Geografia / História / Meio Ambiente
  
Entre as ilustrações tenho predileção por aquelas específicas de meu Amapá.  
Separei algumas:

Guarás (Eudocimus ruber), manguezal na costa do Amapá/AP
Foto: Haroldo Palo Jr (página 21)
Já vi isso de perto uma única vez, na Praia do Goiabal, uma das mais curiosas do Amapá, cuja maré vazante alcança quilômetros (algo que já seduziu mortalmente alguns que se aventuraram a explorá-la sem maiores cuidados); 

Sala de aula bilíngue na Aldeia do Manga (etnia Karipuna), no Oiapoque/AP. 
As crianças iniciam com a língua materna e mais tarde é introduzido o português.
Foto: Lux Vidal (página 13)
Passei por essa aldeia em 2009 e conheci uma escola indígena a três horas de voadeira dessa localidade, na Aldeia Kumarumã. Foi uma das viagens mais espetaculares que já fiz, tendo oportunidade de contemplar um dos maiores espetáculos naturais, a revoada de ciganas (Opisthocomus hoazin) nos aningais pela manhã. Lembro com encanto de centenas de aves douradas cercando-nos no estreito e conservadíssimo rio, no aningal. Uma imagem daquelas seria valorosa nessa obra. Minha tristeza é não ter registrado também, pois esperava fazer isso no retorno da aldeia e descobri que elas saem nos aningais apenas pela manhã. Fiquei curtindo a novidade do momento, esperando registrar no regresso (que lástima!). Eram tantas, que passavam voando a poucos palmos de nossa cabeça e, às vezes, faziam manobras bruscas para não se chocar com a embarcação. Aquelas aves pareciam encantadas e, numa comparação idiota de minha parte, mas para instigar a criançada, pareciam uns pokémons! Essas aves são míticas e raras, pois tem dedos na ponta das asas quando são filhotes, parecendo uma ave pré-histórica. Eita! E eu perdi a chance de fotografar...

Forte Príncipe da Beira, rio Guaporé, Rondônia/RO
Foto: Ricardo Cavalcanti (página 11)
Citando outras imagens, gostei do Forte em Rondônia pela similaridade incrível com a Fortaleza de São José de Macapá. Entretanto, o nosso é maior, mais bonito, mais imponente e mais conservado (ufanismo amapaense!);

Parque Nacional da Neblina, Serra do Padre no Estado do Amazonas, 
fronteira com a Venezuela. Foto: Ricardo Cavalcanti (página 8)
A que me pareceu mais impressionante foi essa, mostrando a Amazônia em seu esplendor florestal, como é mais conhecida e imaginada.
 

Entre as informações de cunho diverso, é bom ser esclarecido sobre a realidade amazônida. O livro aborda pontos como:
- A terra não é fértil e o que garante a exuberância florestal é sua cobertura vegetal em ciclos de reaproveitamento dos resíduos;
- Não é uma terra homogênea como se idealiza em uma infindável floresta. Existem diferentes ecossistemas (várzeas, igapós, cerrados, campos abertos, florestas densas e florestas montanhosas) com variação em clima, fauna e flora;
- A região é habitada por cerca de 25 milhões de pessoas tendo que desenvolver atividades de renda. O ideal é a aplicação da sustentabilidade na relação ambiental, mas os interesses, principalmente de fora da região, a tem destruído de maneira irracional e predatória. Exemplificando com duas culturas que podem se tornar altamente predatórias por aqui, sem o manejo adequado: o plantio de soja (que requer grandes extensões para cultivo a custo da derrubada florestal) e a bubalinocultura (que costuma trazer muitos prejuízos ao meio ambiente, como o impacto que vem ocorrendo na foz do Araguari, onde se vê a criação de novos canais, e o pisoteio e destruição da cobertura ciliar - fatores agravantes ao que o rio vem sofrendo pelo descaso ambiental).  Blasfêmia permitir a entrada e proliferação deles na região de lagos do Amapá, principalmente na REBIO Piratuba. Por conta disso, os novos canais tem levado água salobra da costa para os lagos, causando desequilíbrio ambiental. Esse bichos deveriam ser retirados dali urgentemente.

Pororoca no rio Araguari. Foto: J. R. Couto (página 57)
A pororoca como é enaltecida nem mais existe no rio Araguari, por conta de manejo inadequado das criações de búfalos e, principalmente, pela construção de três hidrelétricas

Finalizando as observações, é uma região onde há um paralelo de riqueza e pobreza. Cada pirata por aqui de olho e mão grande em nossas riquezas... As seringueiras foram levadas para a Malásia, que se tornou o líder da extração do látex, e a pouco tempo os japas tentaram patentear o cupuaçu. Exemplos assim existem muitos. Não duvido que o açaí e a castanha-do-brasil já estejam dissseminados por aí. Te cuida Pará! (atual líder desse extrativismo).
 

Nas informações de cunho histórico, gostei das citações à Mad Maria, a famigerada estrada de ferro que ceifou a vida de muitos pelo interesse de poucos. Teve trabalhadores de quase 40 países e foi desativada em 1972.

Eu não disse que tem muita coisa interessante! Algumas eu até contesto pelo desapego com a veracidade amazônida. Que negócio é esse de 'harpia' na página 24 e 'sapo-grande' na página 26? Oras! É 'gavião-real' e 'sapo-cururu'. Aprendeu aí? Então, tá!)


Por essas e outras é uma bela e curiosa obra. 
Só a polpa do açaí, sumano!

Já sabe, né! A obra está no acervo da
 Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia
Macapá - Bairro Central

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Chão Cametaense (Victor Tamer)

Em 1985 tivemos o marco de 150 anos do início da Cabanagem (movimento revolucionário de ideais libertários, ocorrido no Pará).
A data foi marcada por lembranças sobre o movimento em dois aspectos. Houve celebrações (como a publicação da obra "Cabanagem, a revolução popular da Amazônia", de Pasquale Di Paolo, 1985); e resgate de histórias de rejeição aos cabanos (como a resistência da cidade de Cametá, que atribuiu ao movimento uma conotação subversiva e violenta, tendo embates em luta armada). Esse segundo aspecto foi tema de um discurso de Victor Tamer naquele ano, no Instituto Histórico e Geográfico do Pará, ressaltando a história de Cametá e seu nacionalismo anticabano, exaltado até hoje em episódios que ideologicamente dão uma conotação de bravura e união do povo.
O discurso de Victor Tamer, realizado no contexto da semana de celebração dos 150 anos da Cabanagem, é o tema dessa publicação de 1987, que o conserva (creio eu) em sua totalidade (ou quase isso) e pode ser analisado em três partes, como está destacado no livro. Ressalte-se que o orador é cidadão ilustre de Cametá e fez parte da Academia Paraense de letras.

O texto tem visão conservadora, é pejorativo em alguns momentos e ideologicamente efusivo na referência à Cametá, por suas origens e lutas. 

A primeira parte mostra a história da localidade, referenciando vários pontos, como:
- A existência da nação indígena dos Camutás na região do rio Tocantins do século XVII (inspiração ao nome da cidade);
- O primeiro contato de um europeu com essa nação indígena (através do conquistador e governador francês no Maranhão, em 1613, Daniel de La Touche);
- O estabelecimento de missões de catequese na região (que na exposição do orador deram origem a ocupação estrangeira em 1617, com destaque nessa fase a ação do frei Cristóvão de São José);
- A fundação oficial da Vila Viçosa de Santa Cruz de Cametá (em 1635, através do governador Francisco Coelho de Carvalho, capitão general do Maranhão e Grão-Pará).

Alguns episódios de conotação ufanista foram também relatados:
- A passagem do Padre Antonio Vieira (que é enaltecido como santo); 
- A organização de uma expedição por Pedro Teixeira em 1637 (que arregimentou, entre outras coisas, vários indígenas e conquistou - 'tomou' - e expandiu os limites da região e do Brasil);
- A mudança da localização da vila por questões de segurança relacionadas ao tipo de solo e erosão passível, em 1702 (a nova sede foi oficializada pela Câmara Municipal em 1713); 
- A citação de dois momentos de epidemias na história da região, sugestionando a força e resiliência do povo (varíola em1662 e cólera em 1855); 
- A elevação da vila à categoria cidade em 1848 (enfatizando-se a sociedade desenvolvida e culta nas palavras do orador); 
- E o que é mais celebrado, referente a resistência anti-Cabanagem em 1835. Esse aspecto é valorizado em histórias que reforçam feitos legendários (como o florescimento de uma sumaumeira na estaca que foi usada na cerca de defesa da cidade, que brotou e existiu por 126 anos - o fato é verdadeiro, mas é evidente que foi aproveitado como propaganda ideológica)
Essa é a primeira parte, que achei mais interessante. 

Estou supondo que as outras partes são continuações, pois a obra, com todo respeito a sua representatividade, está muito mal editada. 

A segunda parte fala da Cabanagem em si e tem tem conotação pejorativa. 
- O autor ressalta uma concepção de apego à justiça e harmonia pacata existente na cidade; 
- Resgata um ponto histórico e importante na inspiração dos cabanos, que ficou conhecido como "Massacre do Palhaço". A história de cidadãos descontentes e revoltosos do Pará, cruelmente assassinados nos porões de um navio em 1832, por ordem do mercenário inglês Greenfeel - aliado dos governo do Brasil (responsável também por ações violentas em Cametá); 
- E que esses episódios provocaram descontentamento e mobilização entre os cametaenses (citados por Victor Tamer como as raízes da Cabanagem);
- O movimento explodiu em 1835 e o orador finaliza essa parte com episódios de violência em Belém. 

A terceira parte (se de fato é...) valoriza a história de Cametá anti-Cabanagem, onde a principal figura é o padre Prudêncio das Mercês Tavares, que atuou como líder espiritual, civil e militar na região. Não se mostram muitos detalhes além da construção da cerca na luta de resistência, e o lado sanguinários está apenas com a "desvairada rebelião", que terminou na heroica ação do general pró-império Francisco José de Souza Soares Andréa. 

Olha! Essas são observações que retirei do que o livro concebe.  

A história é muitas vezes como um vaso de barro que se molda a seu gosto e as concepções restringem-se comumente a uma ideologia estrategicamente construída. A Cabanagem teve episódios sangrentos, frutos de uma desarmonia por falta de liderança melhor preparada (como o clero negou com sua não adesão, disfarçada em muitos falsos conceitos, como um nacionalismo hipócrita), o general Andréa teve ação genocida na Amazônia em histórias terríveis; o padre Prudêncio comandou eventos de vingança e foi mentor de mortes violentas; o governo da Regência de Feijó fez planos de unir forças com franceses e ingleses para extermínio maior na região amazônica; o Padre Antônio Vieira manobrou muita coisa na Europa e Brasil para favorecer seu zelo e regalias nas missões (como a libertação dos indígenas do jugo da escravidão a custo da sugestão da escravatura dos africanos); entre outras coisas que a História permite discutir, aceitar ou discordar. 

Informações do livro: 
Título: Chão Cametaense
Autor: Victor Tamer
Editora: Edição do Autor
Ano: 1987 
Páginas: 30 
Tema: Discurso / Cabanagem / História / Pará / Amazônia

Foram as coisas que me instigaram na leitura. Não concordas? É positivo. Quero aprender também. Pegue o livro, faça sua leitura e tenha suas conclusões. Posicione-se. Leia, busque, estude.

A obra está no acervo da
 Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia 
Macapá - Bairro Central 

terça-feira, 5 de abril de 2016

História do Amapá: da Autonomia Territorial ao Fim do Janarismo - 1943 a 1970 (Fernando Rodrigues dos Santos)

Ei turma! Vamos conhecer mais um livro que encontramos na Biblioteca Pública em Macapá! Não é recente, mas tem uma representatividade grande para pesquisas na História Amapaense.

A obra apresenta a história política do Território do Amapá em seu início, que foi marcada pelo Janarismo. O estudo é interessante e desvinculado da ideologia de mitificação do principal representante desse período, o primeiro governador Janary Gentil Nunes, que popularmente é uma figura incontestável. A trajetória é apresentada destacando a importância de suas realizações pioneiras e, o que é desconhecido e polêmico para muitos, os mecanismos que garantiram a longevidade em sua carreira  política. Fatos apresentados cronologicamente, com ponderações, como um resgate da história política no Amapá. 
O livro tem informações curiosas. Aspectos que estou apenas descrevendo.  

- Não sabia, por exemplo, que antes da ICOMI se estabelecer no Amapá houve outro empreendimento de exploração mineral que tentou explorar as jazidas de ferro na região do rio Vila Nova. Não passou da fase de estudos e o empreendimento fechou em um ano, por considerar as reservas abaixo das expectativas e exigir grandioso investimento (leia-se a empresa norte-americana Hanna Exploration Company, em 1946-1947). 
- Politicamente ocorreram  movimentos que tentaram extinguir os Territórios Federais recém-criados (para que voltassem à antiga condição) e o Pará foi um desses fomentadores, principalmente depois da descoberta de riqueza mineral no Amapá. 
- Há abordagem sobre a criação dos Territórios, mostrando-se a proposta de garantia de soberania nacional e a meta de desenvolvimento da região. O autor ressalta que os territórios tiveram em seu desenvolvimento inicial a exploração dos recursos naturais, com retorno, em termos gerais, abaixo do que deveria se estabelecer (pela conivência com interesses políticos e capitalistas).
- Em segundo momento a obra mostra a movimentação política, focada, logicamente, na figura de Janary Nunes. Polêmica para muitos, vemos um jogo de interesses, conchavos políticos, nepotismo, arbitrariedades, autoritarismo, referencias de aquisições financeiras ilícitas e uso das instituições públicas para barganhar e favorecer a manutenção no poder. O Janarismo, segundo a abordagem, teve também isso e o período poderia ter sido mais produtivo na visão do autor. A ascensão e declínio estão relacionados a um  jogo de interesses. Como o apoio empresarial  que Janary recebeu no início de sua gestão e a oposição a ele, pelos mesmos grupos, quando não tinha mais os mecanismos de favorecimento governamental. O jogo político é também ilustrado na postura favorável de Janary a João Goulart, antes do golpe militar, e a adesão ao golpe posteriormente. 

O livro mostra que o político teve momentos de apoio irrestrito, oposição e também escapou de cassação. No fim do período janarista, foi sumariamente derrotado pelos mesmos princípios que o haviam garantido.
Esses são alguns pontos abordados.
 
O autor, Fernando Rodrigues dos Santos, graduado em História pela Universidade Federal do Pará, tem o seguinte texto de apresentação no livro:
"O livro contém informações do período que se estende da autonomia territorial ao fim do janarismo, isto é, de 1943 a 1970, dissertado através de três capítulos. São análises do desempenho administrativo e político dos governantes e principais assessores, parlamentares e líderes políticos, resultando o compêndio de pesquisa bibliográfica e de campo. É uma sistematização desse período da história amapaense contribuindo para o resgate, valorização e ampliação do conhecimento de parte de nosso passado histórico, nem por isso esgotando o tema. O debate está apenas começando..." 
Informações do livro:
Título: História do Amapá: da Autonomia Territorial ao Fim do Janarismo - 1943-1970
Autor: Fernando Rodrigues dos Santos
Editora: Gráfica O Dia S.A
Ano: 1998
Páginas: 205
Tema: Janarismo / História Política do Amapá (1943-1970)


Sumário:
I - A criação do Território do Amapá, instalação do governo e a dinamização econômica
01. Antecedentes e causas sa autonomia
02. A escolha do governador e da capital
03. O surgimento do Janarismo
04. Adequação do ensino regional ao janarismo
05. Organização do serviço público
06. O despontar político partidário
07. Extinção de Territórios Federais
08. Consolidação do governo janarista
09. A implantação do projeto ICOMI
10. Tentativa de ordenação dos Territórios
II - A OPOSIÇÃO PARTICIPANDO DO GOVERNO, CRISE POLÍTICA NACIONAL E A RESTAURAÇÃO DA SUPREMACIA JANARISTA
01. Novas adesões e dissensão no janarismo 
02. Compondo e rompendo com a oposição
03. Forçado a recompor com o PTB
04. Amplo apoio ao janarismo
05. Fim do governo de coalisão
06. A SPVEA discrimina o Amapá
07. Reorganização da oposição ao janarismo
08. Os Nunes afastados do governo
09. A supremacia janarista se restabelece
III - MUDANÇAS POLÍTICAS E ADMINISTRATIVAS, O JANARISMO SOB SUSPEIÇÃO, RECUPERAÇÃO EFÊMERA E O DECLÍNIO
01. Desmandos administrativos e oportunismo
02. Manifestações de apoio ao regime militar
03. Acusações ao janarismo e a reação
04.Erro de avaliação da imprensa oficial
05. Melhorias no ensino público
06. Situação partidária atípica 
07. Reglutinação das forças governamentais
08. Austeridade administrativa e financeira
09. Autoritarismo e a reação local
10. Eleições municipais de 1969
11. Declínio do janarismo
CONSIDERAÇÕES FINAIS

 Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia 
Macapá - Bairro Central