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terça-feira, 18 de julho de 2017

Assembleia de Deus: Cem anos de transformações espirituais e sociais no Amapá (Francisco Sena - ORG, 2017)

Obra preciosa, disponibilizando referencial histórico pouco difundido e, em termos gerais, desconhecido pelo povo amapaense. A abordagem apresenta pesquisa sobre o Centenário da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Amapá, tema tratado também em valorosas publicações recém lançadas, mas com diferencial de resgate histórico da trajetória do catolicismo e de outras denominações evangélicas no estado após o pioneirismo assembleiano.
Os autores, pesquisadores vinculados à FATECH - Faculdade de Teologia e Ciências Humanas, traçaram um panorama que permite a percepção da igreja em sua ação na Amazônia e Amapá, ressaltando fases, principais pontos relacionados a elas e atual situação do "assembleianismo" amapaense. Aspectos que se organizam em quatro artigos de maneira sucinta, tendo riqueza e ineditismo de informações, principalmente para a classe estudantil.

Título: Assembleia de Deus:
           Cem anos de transformações espirituais e sociais no Amapá
Autores: Francisco Maurício de Sena Júnior (ORG)
               Ezer Belo das Chagas
               Edna Pasini das Chagas
               Falbert Maurício de Sena
               Fredson Maurício de Sena
               Flábio Sena
Editora: Tarso
Páginas: 59
Ano: 2017

Breve História da Igreja Católica no Amapá é o primeiro momento e o que chamou minha atenção foram as considerações sobre a ação missionária na Amazônia, marcada pela expulsão dos jesuítas na metade do século XVIII. Nas considerações essa ação deixou as missões suscetíveis à incorporação de tradições, ritos e festejos até então não oficializados no catolicismo, mas aceitáveis na adesão popular (o livro não cita, mas me veio como exemplo a visão sobre a Festa em Mazagão ou o reconhecimento de santos vindos do apelo popular, que em determinado momento ultrapassaram uma hierarquia administrativa e se estabeleceram).
Outros aspectos importantes foram: a oficialização do catolicismo como religião do país entre as constituições de 1824 e 1891 (criando raízes para conflitos que se estabeleceram na visão sobre outros credos, pela mentalidade sobre o permissivo e subversivo, transmitida de forma tradicional entre as gerações); o engajamento nas causas sociais (para muitos, em termos práticos, criou imagem de fusão entre poder governamental e autoridade religiosa); e a reformulação dinamizada pelo Movimento Carismático.
Em Macapá, destaque para a Igreja de São José (o prédio mais antigo da cidade, de 1861), os conflitos com a chegada dos primeiros missionários evangélicos e a história do estabelecimento do Círio de Nazaré.

Em Breve História das Igrejas Evangélicas no Amapá é apresentado o pioneirismo dos missionários  da Assembleia de Deus, algo que tem sido estudado em maior destaque esse ano, por isso o que me instigou mais nesse artigo foram informações sobre o início de outras denominações evangélicas (como os Presbiterianos nos anos 40 e Batistas nos anos 50). Desse ponto em diante o foco do livro é voltado apenas aos assembleianos e, a exemplo do que aconteceu em outras partes do Brasil e em histórias do início da denominação, vemos também dissensões entre os líderes no Amapá na trajetória da igreja, gerando separações. Fato decorrente de desacordos ministeriais que deram origem a duas convenções estaduais de pastores: a CEMEADAP (Convenção Estadual dos Ministros das Assembleias de Deus no Amapá)  e UFIADAP (União Fraternal das Igrejas Assembleia de Deus no Amapá), que tem suas histórias contadas em aspectos, embora conflituosos e nessa caracterização nada bonitos, de importância para estudos.

As transformações na Assembleia de Deus é o terceiro artigo e dos mais interessantes no livro, por mostrar a identidade atual dos assembleianos no Amapá. Duas coisas se destacam: a educação teológica de cunho acadêmico valorizada e incentivada entre os líderes, e a admissão de pastoras no ministério. Esses aspectos se ressaltaram na convenção de ministros ligados principalmente à UFIADAP que, ao lado de outra convenção de pastores do Distrito Federal (no parecer do livro) são as únicas que fazem a consagração de pastoras no ministério da Igreja Assembleia de Deus no país. Temos congregações amapaenses que são lideradas por pastoras e é ressaltado que a aceitação é grande, apesar de conservadorismo ainda presente.
O capítulo tem uma parte também interessante sobre a participação de mulheres nos relatos bíblicos do Novo Testamento. Deixo em registro as profetizas filhas de Felipe (Atos 21:8-9), a docência na igreja de Priscila (Atos 18:26) e o trabalho assistencial de Tabita, também chamada de Dorcas (Atos 9:36-43). Destaque para Gálatas 3:28, sobre a ação desejada na igreja.

O crescimento das Assembleias de Deus no Brasil e Amapá mostra um decréscimo no movimento pentecostal em termos gerais, baseado em dados do IBGE. O texto analisa a história e cita aspectos que favoreceram o avivamento no primeiro momento da chegada dos pentecostais. Estão relacionados à valorização dos marginalizados (pobres, negros, índios, ribeirinhos, analfabetos) e, principalmente, em entrega a um propósito de vida que para muitos não parece mais novidade hoje. Penso em frieza espiritual quando o evangelho parece encoberto em seu valor aos olhos de uma sociedade que procura enquadrá-lo a seus interesses e não ao real objetivo de viver em comunhão com Deus.

O livro tem esses e outros aspectos muito interessantes para reflexão e discussões no estudo da trajetória da Igreja Assembleia de Deus no Amapá.
Com exceção de alguns pontos na organização e layout que não curti, a obra é preciosa e fundamental para estudantes, historiadores e teólogos que queiram enriquecer suas pesquisas sobre o Amapá.

Mais informações sobre a história centenária da Assembleia de Deus no Amapá em: