As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Bíblia do Centenário da Assembleia de Deus de Capanema - PA (2016)

Vi essa Bíblia Comemorativa com um amigo na Escola Bíblica Dominical (EBD), sobre o Centenário da Assembleia de Deus de Capanema, e imediatamente fiquei com vontade de conhecer a história. É uma edição bonita, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, com o diferencial de um encarte especial totalizando 28 páginas com informações históricas.  
Capanema é um município paraense, com população próxima de 70 mil habitantes, onde a Igreja Assembleia de Deus foi fundada em 03 de Março de 1916
A leitura foi realizada em paralelo com a história do assembleianismo no Amapá, que teve sua primeira congregação em 1917, tendo em comum alguns evangelistas e pastores.


Nos textos iniciais, pontos rotineiros no estudo de todas as congregações assembleianas:
- A visão sobre o avivamento pentecostal norte-americano no início do século XX (sob a liderança do pastor Charles Fox, em Topeka - kansas);  
- O movimento pentecostal em Los Angeles na rua Azusa (com o pastor Willian Seymour); 
- A história dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg na jornada peculiar e extraordinária à Belém do Pará em 1910 (que resultou na fundação da Assembleia de Deus no ano seguinte, como denominação evangélica).  
As particularidades da AD Capanema iniciaram na década de 1910, quando foi visitada por colportores como Daniel Berg e Clímaco Bueno Aza no trabalho evangelístico que faziam nas comunidades de entorno da estrada de ferro Belém-Bragança. O texto cita o ano de 1912 como uma das datas de passagem evangelística, mas a fundação da congregação em Capanema foi oficializada com o estabelecimento do primeiro pastor, Isidoro Saldanha, em 1916.
Esses pontos são parecidos ao caminhar assembleiano no Amapá, que teve a visitação evangelística de Clímaco Bueno Aza em 1916 e a fundação congregacional em 1917 com a oficialização do primeiro culto e batismos.  
A consolidação, porém, da AD em Capanema foi mais rápida e dinâmica que em Macapá, pois os pastores residiam no lugar e o primeiro templo foi inaugurado em 1921, facilitando a organização de ministérios como o Coral e Círculo de Oração. 
Em minha cidade, Macapá, por uma série de fatores, como o isolamento e dificuldade de acesso, a organização foi a passos mais lentos. Os primeiros pastores fixos se estabeleceram na década de 1940, o primeiro templo de alvenaria foi inaugurado em 1958 e a maioria dos departamentos na igreja foram organizados a partir de 1962, com a chegada do pastor Otoniel Alencar.  
O encarte traz também fotos de várias congregações de Capanema e a lista em ordem sequencial de todos os pastores da igreja pioneira, com breve histórico. 
Além do Evangelista Clímaco Bueno Aza (colportor) e Daniel Berg (que realizou visitas e batismos em minha cidade), outro missionário que tivemos em comum foi o pastor Deocleociano Cabralzinho de Assis, que presidiu a AD em Capanema em dois momentos (o intervalo foi o estabelecimento em Macapá, onde lançou a pedra fundamental para a construção do primeiro templo de alvenaria em 1948).
Gosto de estudar essas histórias especialmente quando se desenrolam no nível de curiosidades e esse foi o ponto que senti falta no encarte. Em nossa congregação, por exemplo, temos o registro dos primeiros novos convertidos, data e peculiaridades dos primeiros batismos nas águas e no Espírito Santo, e histórias atípicas edificantes para serem conhecidas pelas novas gerações (como a jornada do evangelista Clímaco Bueno Aza para aportar nessas bandas, a prisão que lhe impuseram, a reação do padre local mandando destruir as Bíblias e literatura evangelística, e o testemunho de um judeu ao ver o batismo de uma irmã no Espírito Santo em 1917). Gostaria de ver temperos como esses, de valorização à informalidades históricas no encarte. Acredito que a congregação em Capanema deva ter relatos extraordinários também.
Obviamente, conferi somente o encarte. Esse ano estou fazendo a leitura bíblica na edição com a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Não sei se a Bíblia Comemorativa de Capanema foi nas versões Corrigida e Atualizada de João Ferreira de Almeida. Essa que chegou em minhas mãos é na caracterização Atualizada em letra gigante (minha preferida também).
 
Ah, estou na expectativa do lançamento da Bíblia Comemorativa do Centenário da Assembleia de Deus no Amapá. Está quase saindo, e eu na vontade crescente de dar aquela saboreada...  

Parabéns aos irmãos de Capanema pelo abençoado Centenário! E todos nós, aproveitemos a boa oportunidade e bem-aventurança de ler, conhecer, aprender e viver a Palavra do Senhor através das Sagradas Escrituras. 
Graças a Deus por tudo!

  

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Projeto Jari - A Invasão Americana (Jaime Sautchuk, Horácio Carvalho e Sérgio Gusmão - 1979)

Os autores desse livro estudam e documentam uma das mais típicas manifestações da economia política da ditadura militar instalada no Brasil desde 1964. Sob vários aspectos, os dados e as análises apresentados aqui mostram como o estado foi levado a atuar em contradição com os interesses da maioria da população do país.
O Projeto Jari é bem uma expressão dessas iniciativas. Mostra, de forma bastante clara, vários aspectos muito importantes do modo pelo qual a ditadura foi levada a interferir na vida econômica e política do país, prejudicando interesses presentes e futuros da sociedade.
OCTÁVIO IANNI 
(Trecho da apresentação do livro)

INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: Projeto Jari: A Invasão Americana - As Multinacionais estão saqueando a Amazônia
Autores: Jaime Sautchuk, Horácio Martins de Carvalho e Sérgio Buarque de Gusmão / Apresentação de Octávio Ianni
Editora: Brasil Debates
Páginas: 110
Ano: 1979

A obra foi publicada no período da ditadura militar, em 1979, voltando a atenção para o Projeto Jari em exemplificação à uma crítica alarmante e de denúncia à ação de grandes empreendimentos estrangeiros na Amazônia. A visão é nacionalista, justificando-se em autores militantes da causa, com uma abordagem que em certos momentos radicaliza, instigando percepção de vilania e exploração indiscriminada de nosso patrimônio, como se tudo se resumisse a isso.
Interessante que a publicação coincide com o momento em que o empreendimento da Jari tomava novo fôlego em seus projetos, devido a recente instalação da fábrica de celulose no final da década de 1970. A vinda desta se deu em uma jornada épica e lendária, despertando entusiasmo ao progresso pelos vários desdobramentos associados. Coisa ainda não experimentada em uma região secularmente marcada por riquezas naturais em paralelo à exploração da natureza e do homem.
Os autores situam a questão do beneficiamento se direcionar, sobretudo, aos mega empreendimentos estrangeiros, representantes do imperialismo americano. Essa compreensão, em linhas gerais, está nos incentivos fiscais que recebiam do governo. Financiamentos que minimizam os custos, potencializando maior lucro na exploração das riquezas e da mão de obra local - o que restava para a sociedade brasileira. A caracterização é de entreguismo e uma maquiada exploração, como fora em outros tempos, nas fases do coronel José Júlio de Andrade e dos portugueses.

Daniel Keith Ludwig
Um pouco mais novo, gordo e alegre (pág. 18)
Há radicalização nesse contexto, a começar na primeira parte, em que o empresário Daniel Keith Ludwig é apresentado em uma biografia excêntrica, tendenciosa à percepção de riqueza associada à exploração de países subdesenvolvidos, contando com aliados corruptos (citando-se gângsteres e ditadores) em governos subservientes ao imperialismo americano, dispostos à arranjos favoráveis. Na política de entreguismo do governo ditador, foi citado um projeto de formação de grandes lagos, que inundariam boa parte das comunidades ribeirinhas para facilitar a entrada de mega navios no escoamento das riquezas. 

Um hotel no estilo dos conquistadores da África, em Monte Dourado. Uma fábrica que pode ser levada de volta quando acabar a matéria-prima (Pág. 47)
A abordagem dos trabalhadores e cotidiano na Jari é o segundo aspecto tratado, em prol do entendimento da visão exploratória. Citam-se privilégios aos cargos mais elevados, como exclusividade para comprar bebidas e frequentar o mais famoso clube - a Jariloca. A condição de vários trabalhadores é apresentada, destacando-se a exploração e suporte precário em alguns cotidianos (como o fornecimento de alimento aos trabalhadores da mina de caulim). A realidade do Beiradão também é mostrada em seu desenvolvimento, associado à exploração comercial e sexual. Os autores registraram até o preço do programa com as prostitutas. Muita coisa parece generalizada e fatos isolados supervalorizados para ressaltar o cenário de exploração do homem.
Área do Projeto Jari (Pág. 60)
A obra finaliza instigando a percepção dos empreendimentos estrangeiros na caracterização de proteção pelo governo, com mão de obra explorada, instalação em grandes latifúndios sem o devido reconhecimento do tamanho real (para a fuga dos impostos), tendo política contra a reforma agrária, degradação ambiental, prejuízo aos povos da floresta e recebimento de financiamentos governamentais que nem sempre resultavam em beneficiamentos à região. Nesse último aspecto o livro cita a história de um empresário estrangeiro no Pará, que recebia incentivos da SUDAM, usou técnicas de guerra para desocupar a região para a posse e nela desenvolveu apenas atividade madeireira, não planejada no incentivo governamental que recebia. 
Essa é a Amazônia vista na abordagem do livro sob ação estrangeira. É muito coerente e de importantes reflexões, mas também rolou exagero sensacionalista. O Projeto Jari teve uma sucessão de fracassos que não foram abordados e que estavam em andamento. Não se resume a isso, mas foi o que entendi. 
O dinheiro do Imposto de Renda, manipulado pela SUDAM,
 também engorda as finanças da Jari (Pág. 76).
O povo do Jari é pobre. As casas do Beiradão são construídas
 sobre o rio ou terrenos alagadiços (Pág. 28).

É mais uma importante obra que pode ser consultada na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

...E o branco chegou com a cruz e a espada (Pe. José Oscar Beozzo, 1987)

"O título desse livro lembra-nos a sorte triste e cruel de milhões de indígenas a partir do momento em que os espanhóis e portugueses aportaram nestas plagas. 500 anos de sangue derramado, de culturas agredidas, de povos crucificados: a brutal história de séculos de genocídio e etnocídio. Havia, é verdade, também quem defendesse estes povos dando prova de amor maior, mas nem por isso o curso da história mudou. O holocausto prosseguiu através dos séculos."
ERWIN KRAUTLER 
(Trecho do texto de apresentação no livro)

Publicação de 1987, do Pe. José Oscar Beozzo, com abordagem sobre a colonização do Brasil e implicações para povos indígenas e afrodescendentes. Resulta de curso de história ministrado pelo autor na cidade de Belém, em 1985, relacionado ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário), dando ênfase à Região Norte.  
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: E o branco chegou com a cruz e a espada
Autor: Pe. José Oscar Beozzo
Editora: CIMI Norte II 
Páginas: 199
Ano: 1987


A visão sobre o indígena é a que tem maior destaque no livro, e o aspecto que se apresenta de forma mais interessante é a divisão dessa história em determinadas fases.
- A primeira vai da 1500 à 1755. Período do descobrimento, quando o Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa, até a expulsão dos jesuítas e de outros missionários dos aldeamentos indígenas. Os textos ressaltam a ação de catequese e uso da mão de obra desses povos em um sistema de padroado da igreja pelo estado.
- De 1755 à 1910. Período marcado pela administração de leigos responsáveis pelas aldeias, havendo abandono e violência gradual com a ocupação das terras no Norte. A Cabanagem é citada nesse contexto com o indígena unindo forças às massas desprestigiadas pelo estado.
- 1910 à 1971. Fase em que os indígenas são objeto de atuação do estado, com políticas mais específicas, primeiro através do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e depois pela FUNAI (em substituição ao SPI). Vemos também a ação de  missões ligadas à Igreja Católica e Evangélica. Nessa fase ocorreu a ditadura militar e reformulações no catolicismo através do Concílio do Vaticano II (ambos na década de 1960) com desdobramentos impactantes para os povos indígenas de forma positiva ou não.
- De 1972 à 1985. Essa fase iniciou com a criação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) em um contexto de autoritarismo e luta por direitos diante dos planos de desenvolvimento no Norte pelo governo militar. A ação é marcada por impactos aos povos indígenas, através de rodovias sem planejamento ambiental, criação de latifúndios, pecuária invasiva, incentivos fiscais para empreendimentos estrangeiros sem estudos específicos, desmatamento rotineiro, poluição, violência no campo, entre outros aspectos. O CIMI, reformulado pela modernização católica resultante do Concílio do Vaticano II, engajou-se em lutas sociais. O projeto Calha Norte foi citado como referencial dos planos do governo nos desdobramentos citados.

Igreja e Estado operando em conjunto para cativar o índio (Ilustração do livro)
Na questão do negro os pontos que chamaram mais atenção foram:
- O posicionamento da igreja ante a escravidão: No sistema de padroado pelo estado, com os padres como funcionários públicos, havia conivência com absurdos, citando-se o Padre Antônio Vieira, que via a escravidão como algo bom para o negro em face das desgraças em seu continente, como se fossem os culpados e assim o trabalho forçado no nosso país era como um purgatório para eles.
- Outra coisa curiosa e desconhecida era o planejamento dos escravagistas em adquirir escravos de diferentes etnias, numa forma de impedir união e fortalecimento. Muitas vezes eram de povos inimigos que, segundo o texto, delatavam as partes contrárias que planejavam fugir.

A escravidão no Brasil (Ilustração do livro)
Nas abordagens finais o autor cita o Concílio do Vaticano II e disposições que aproximaram missionários com a Teologia da Libertação e envolvimento com questões sociais, como o engajamento nas CEBs (Comunidade Eclesiais de Base).
Engajamento católico nas CEBs (Ilustração do livro)
A obra preservar os textos conforme a exposição oral nos cursos, e essa informalidade, que visa a facilitação no entendimento, por outro lado é o aspecto que não curti no livro. Passa a percepção de uma série de discursos e reportagens como um amontoado de informações, faltando uma junção metodológica entre elas, um elo de continuidade, que certamente foram mencionados no curso, mas que não se fazem notar na publicação.


Disponibilizado para consultas
na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá 
ou nesse LINK.