As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.
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terça-feira, 25 de março de 2014

Marieta & Alexandre Paulo, baluartes na ascendência de minha família em Macapá

Como amante da história tenho apreço e curiosidade grande pelas histórias familiares. Saber da ascendência, de onde vieram, o que viveram, que coisas experimentaram... Esse é um conhecimento que, invariavelmente, perde-se quase todo (ou tudo mesmo e para sempre) entre as famílias. Com meus parcos recursos, meu limite de conhecimento vai até meus bisavós pelo lado materno. Daí para trás é um mundo desconhecido com pessoas que jamais saberei algo (incluindo nomes, origens e imagens). Por isso tenho como abençoados aqueles que conheceram e conviveram com seus antepassados mais distantes, pois o tempo, assim como escreve novas páginas, faz com que aquelas outrora vividas sejam apagadas das mentes e corações de todos. Quem sabe também a história de todos nós daqui a algumas gerações...
Dos quatro casais de bisavós em nossa história, tive a bem-aventurança de conhecer apenas um, cujas lembranças tenho da minha infância/adolescência e aqui apresento para os mais novos da minha família... toda uma geração de bisnetos e tataranetos que nunca viram ou ouviram algo dos mesmos. É para estes que compartilho e apresento-vos os estimados, e importantes em nossa história familiar, ALEXANDRE PAULO e MARIETA, baluartes respectivos nas famílias Ferreira e Balieiro, naturais da região de Breves no Pará.

Alexandre Paulo e sua estimada Marieta viveram um casamento de seis décadas. Em linhas gerais, vô Alexandre era um homem piedoso e com fé firme e forte, não sendo abalada pelas muitas lutas que enfrentou, desde a perda da visão, no vigor ainda de seus anos, até sua partida em 1984. Vó Marieta, característico das mulheres acostumadas desde cedo à vida ribeirinha, era uma mulher vigorosa e também engraçada. Seu adeus foi no ano de 1991.

Deles vieram os filhos: Raimunda (Mundinha), Sebastião (Nilzinho), Maria Vitória (Lola), Lourival, Raimundo e Ana. Cada um com suas histórias e famílias construídas, destes me reservo apenas às histórias de Ana, que tem sua descendência misturada à Família Castelo.

Consegui também fotos do Raimundo, Lourival e Ana, a última desta geração, a nos agraciar com sua presença (fazendo jus ao nome). Não é outra senão a grande Vó Nikita! 
Ah! O menino que aparece ao lado do tio Raimundo (1975) e o fulano com a Vó Nikita sou...

Veja também:

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Família Castelo, a semente de Ana (ontem e hoje)

Essa é uma homenagem a meus familiares, especialmente à minha avó e à minha mãe, Ana e Alzira Castelo. Nikita para os íntimos, minha avó Ana Castelo é uma das pioneiras e moradora das mais antigas do bairro do Trem, hoje com 86 anos, fixando residência nestes cantos desde a década de 50, quando o bairro se limitava às imediações da Praça da Conceição e havia um matagal no que seria futuramente a Rua Hamilton Silva. Naquela época os lotes estavam sendo estabelecidos e distribuídos pela prefeitura. Minha avó e vários de meus parentes, nas proximidades desta rua no Trem, foram contemplados. Como foi comum na época (e ainda hoje assim é) veio da região de ilhas do Pará, com uma história familiar de muitos anos na localidade de Breves. Aqui se estabeleceu no jovem território e continuou sua saga... Minha família! Graças a Deus!

Ana Castelo e filhos (1963)

Da esquerda para a direita: Augusto (Teco), os gêmeos César e Manoel Benedito (Bené), José Maria na janela (conhecido como Mudo, hoje é professor evangélico de classe de ensino especial), Ana com o bebê Antonio, Maria José (Dedeca) e Alzira Castelo (minha mãe, a primogênita da família).
Minha avó teve outros três filhos, que não aparecem na imagem: Maria Helena (vitimada pelo sarampo em Macapá, ainda menina, em 1960), Waldiney (Val, nascido em 1965) e Marcelo Castelo (o caçula, nascido em 1968).
A foto foi registrada na frente de sua casa, na Rua Hamilton Silva por um tipo de profissional diferenciado naqueles tempos, um fotógrafo andarilho, que ia oferecendo seu trabalho de casa em casa.
Ana Castelo e filhos (2014)
Ana e filhos, da esquerda para direita: Maria José, Antônio, César, Marcelo, José Maria, Alzira, Ana, Augusto e Waldiney. Faltou apenas tio Bené!


Veja mais alguma coisa em:

São relatos baseados em histórias de minha avó (sujeitos também a alguns erros).

sexta-feira, 1 de março de 2013

Lembranças de casa (Histórias da Vó Nikita)

Era uma vez um paraense que constituiu uma família de cinco filhos: Sebastião (Guitão), Apolinário (Puluca), Cezarina, Nelson e Elísia (Lili), filhos de Maria Pena Castelo. O homem vivia em terras ribeirinhas, como seus irmãos Pedro e Judite, junto a amazônidas espalhados na região de um grande rio, o Jacaré Grande, vizinho do Rio Jacarezinho, vizinho do Rio Mututi, na região de Breves. 
Baía do Rio Jacaré Grande - Pará / Foto: Marcel Lima
Gira o mundo trazendo consigo suas portas do destino, diferente e abrangente a cada um de seus filhos. Ouvi falar que foram seringueiros e outros enveredaram pelo ramo do comércio, houve um renomado mestre-de-obras e outro seguiu os passos do pai como tabelião. Seja o que for, construindo uma história com o sobrenome daquele homem, o velho César Castelo
Arquipélago do Marajó - Foz do Amazonas (Foto: Wikipédia)
O tempo é mesmo uma ave de vôo rápido e, das histórias vividas no mundo retalhado pelas águas no arquipélago marajoara, três dos irmãos agora são moradores de uma jovem capital, Macapá. Lugar de sonhos renovados em oportunidades anunciadas desde 1943 com a criação territorial. Migraram para estas terras, como tantos outros, assumindo a identidade amapaense na década dos anos dourados. Os dados atuais mostram ainda essa realidade, grande parte da população amapaense é oriunda da região de ilhas paraenses.
Macapá, capital do jovem Território Federal do Amapá (Foto: AMAPATEC)
Ana e Apolinário (1969)
O homem teve outros filhos e destes, talvez com algum equívoco, sei citar os nomes da César, Ézio, Manduca e Zé Maria, havendo outros que não conheço e dos quais nada sei de histórias, a não ser de seu filho Apolinário, para sempre em minhas lembranças como o Puluca. Tal qual seu pai, também patriarca de muitos em uma família construída com a ribeirinha dos olhos claros, Ana Ferreira Castelo. Meus avós.


 Casamento civil de Apolinário e Ana (casal no centro) em Macapá, 1960.
A consolidação de um relacionamento desde os interiores de Breves.
O cidadão de costas, à direita, é o Miguel Nunes, conhecido na história do bairro do Trem como "Barrigudo", dono de um bar (o "Estrela Dalva") que nos anos 50 e 60 promovia batalhas de confete no carnaval (isso é relembrado sempre na história do carnaval amapaense). Meu avô trabalhou no local e o Barrigudo foi testemunha em seu casamento civil.
Os casamentos religiosos nos confins ribeirinhos se davam quando algum padre visitava as comunidades anualmente em um batelão. Assim foi o de meus avós quando moravam às margens do Rio Jacarezinho (Breves - Pará).
  
Vila de Riberinhos (Obra de JERIEL SOUZA / 2009)
Em Macapá se estabeleceram em busca de realizações e oportunidades aos filhos, como a escola, acesso aos serviços de saúde e emprego, morando no Bairro do Laguinho (anos 50) na época fiel ao nome com áreas alagadas, onde a malária acometeu vários moradores. 

Bairro do Laguinho na década de 1960 (Foto: Acervo Biblioteca SEMA)
Das agruras fizeram-se fortes até firmarem-se em uma parte da cidade que estava sendo loteada e distribuída pela prefeitura (ainda nos anos 50). 


De lá viam-se campos ermos (veja na parte superior à esquerda na foto de Macapá no início da postagem), com um córrego e lagos, onde os buritizais se estendiam a perder de vista. Diziam que logo seria um grande bairro, restando hoje daquela mata  apenas o nome do maior dos bairros de Macapá, o Buritizal. O córrego e lagos já não existem, foram comprimidos no atual Canal do Beirol.


Meus avós e outros que conseguiram lotes vislumbraram melhores condições com a construção anunciada de uma escola, hospital e uma grande garagem da prefeitura nas adjacências de onde foram morar. Era o Bairro do Trem, reduto final dos irmãos Apolinário e Nelson Castelo. Nessa época os limites do Trem não se estendiam muito além da Praça da Conceição e já existiam as Escolas Alexandre Vaz Tavares e Castelo Branco. O loteamento expandiu o bairro e, durante muitos anos, até os anos 80, um lago ainda existia no que é hoje o Canal do Beirol, com muita gente residindo nesta área de ressaca.

Aí estão o PS Osvaldo Cruz, a Escola Coaracy Nunes (no Bairro Central próximos ao Bairro do Trem) e a garagem da prefeitura na Hamilton Silva (Trem). Pontos descritos no texto que entusiasmaram novos moradores do Trem nos idos iniciais de sua urbanização. Fotos de 2013.

A geração de Ana e Apolinário Castelo

Ana (centro) e seus filhos, respectivamente: Augusto (Teco), os gêmeos César e Bené, Zé Maria (na janela), Antonio (bebê), Maria José (Dedeca) e Alzira. Foto de 1963, já estabelecidos no Bairro do Trem. 
Outros filhos foram Maria Helena (ao lado de Ana, 1958?, em foto rara e única da família, o sarampo a levou aos 8 anos em 1960, realidade de uma Macapá de outrora.), Marcelo (com Ana, em 1970?) e Valdiney Castelo (em 1981).

Assim cresceu esta cidade, com muitos paraenses buscando por melhores dias. Dois fatores decisivos contribuíram para o aumento migratório: a criação do território federal nas terras que antes pertenciam ao Pará e a instalação da ICOMI (Indústria e Comércio de Mineração). 
Macapá, como jovem capital, passou a receber investimentos e melhorias básicas em sua infra-estrutura: escola, hospitais, abertura de ruas, delineamento dos bairros, etc. Tudo muito propício à migração também. 
A população macapaense na década de 1960, de acordo com o Anuário Estatístico do Amapá, era de 36.214 habitantes, e a atual está próxima dos 400 mil habitantes (IBGE 2010). Como nos tempos de meus avós, continua uma intensa migração, mas as oportunidades já não são como há tempos atrás e a ocupação e desaparecimento das verdejantes áreas de ressaca foram consequências imediatas com o inchaço populacional (como os lagos citados sobre o Buritizal), sem falar em outros graves problemas sociais.
  
Apolinário, em pé, quando trabalhador em um estabelecimento em Macapá na década de 60. Segundo me consta, seria um hotel chamado Santo Antonio.
Puluca, meu avô, uma das mais carismáticas pessoas que conheci, deixou seu nome para ser honrado através de seus dez filhos, iniciando-se esta geração com a "graça e beleza" (esse é o significado do nome na etmologia e abençoada vivência) de Alzira Castelo, professora em todos estes fatos contados, junto com minha avó Ana
 A geração de Alzira Castelo
Alzira (Década de 60)
Mulher batalhadora e admirada pelos familiares e amigos, Alzira Castelo é a primogênita de meus avós. Nascida em 1948 nas terras ribeirinhas de Breves, especificamente em um lugar conhecido como Arrozal, é uma das colunas mais bonitas desta família, com uma história de belos exemplos e vitórias contra adversidades, desde quando menina ribeirinha nos interiores brevenses. Uma auxiliadora fundamental de Ana. Pode ser chamada de mulher virtuosa, eu a chamo de mãe.

No ano de 1951 o estudo geológico e conclusivo da ICOMI confirmou a existência de quantidade superior a 10 milhões de toneladas de minério na região de Serra do Navio. Diagnóstico necessário para o início da construção das instalações industriais (embarcadouro e ferrovia) em 1954. 
Os projetos de urbanização e construção das vilas residenciais (Serra do Navio e Vila Amazonas) começaram em 1955. As obras concluiram-se em prazo inferior ao estipulado (previsto para quatro anos) e em 1957 começou o embarque de minérios no Porto de Santana. Tudo isso ressoou como uma oportunidade de emprego e melhores condições de vida para muitos trabalhadores. A ICOMI e suas vilas apresentavam um padrão e qualidade de vida acima do que era comum na Amazônia (educação, saúde, lazer, moradia, segurança, etc), despertando sonhos e incentivando ainda mais a migração para o Amapá. 

Porto de Santana e o embarque de minério (Biblioteca IBGE), Ferrovia Santana-Serra do Navio (Livro Mineração no Brasil/Léo Christiano Editorial) e Vila de Serra do Navio (Livro Vila Serra do Navio/Benjamin Ribeiro).
Alzira Castelo construiu sua história nesse sonho, residindo em Serra do Navio entre os anos de 1970 a 1982, casada com Osvaldo Nascimento (1969). Na Vila Amazonas teve os filhos Inara e Rogério, e em Serra do Navio os filhos Rogerson e Imara. Outros tempos de uma cidadania respeitada. Se meu Amapá primasse sempre por isso...
Alzira (minha mãe) e os filhos Rogério, Rogerson (bebê) e Inara (1974).
Osvaldo (meu pai) e os filhos Inara, Rogerson (centro) e Rogério (1975)
Ana (centro), Alzira e seus filhos Rogerson (à esquerda), Rogério, Imara (menina) e Inara (1985).
Ah se pudesse conhecer mais histórias! Nosso univeso costuma girar só em torno dos mais próximos que temos... Há coisas para sempre perdidas, ou que são capazes de unir pontos desconhecidos, e talvez tão próximos, de irmãos que vem se espalhando a gerações: minha Família Castelo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Histórias da Vó Nikita: Meuã de uma guariba (Parte 1)

Guariba Vermelha
(Foto: estradasecaminhos.blogspot.com)
Nas altas copas desfila sua maestria de acrobata, não temendo alturas e se movimentando confiante nas sumaúmas, angelins ou ipês. Canta também como artista da mata, um aviso de quem tem o senhorio por ali, em apresentações conhecidas no final das tardes. Chamam-na de Arawata, Akyky, Arãta ou Alawata; às vezes é Singe rouge, Brulaap, Guianan red howler monkey, Roter Brüllaffe ou Araguato; também é Bugio e eu a conheço por Guariba. Nome familiar no Norte que, na raíz tupi-guarani, refere-se a um indivíduo feio. Não me importa, é o nome entre todos que me soa mais bonito, enchendo a boca numa expressão de amazonidade
"Os uivos característicos são uma boa forma para a espécie preservar energia, indicando sua presença e evitando conflitos com outros grupos. São impressionantes e resultam de uma modificação do osso hióide na garganta. O animal é de natureza pacífica." (Fonte: une-saison-en-guyane.com)

Vive em bando de uns 10 indivíduos chefiados pelo mais forte, a quem aprendi chamar de capelão, buscando pelos frutos, pelas sementes, flores, ovos e até cupinzeiros. Tem da espécie vermelha e da espécie preta, sendo a mais comum a primeira, também chamada de ruiva ou loira. O bicho tem fama de ladino e esperto, quem sabe não foi daí que surgiu a expressão guaribada, sugerindo uma enganação com algo rapidamente feito. Não sei de nada, são conjecturas... 
Guariba Preta
(Foto: ninha.bio.br)
Vamos ver o que a sabedoria popular nos ensina também. 
O caboclo da Amazônia é observador e vai guardando tudo o que espia e escuta dessas matas e rios, seja fruto de verdades, equívocos ou de deslavadas mentiras. Não é de hoje a fama de matreira da guariba. É um bicho ajuizado e esperto, acompanhe: aprecia os bons frutos, como o taperebá, tendo sempre o cuidado de enfiar no fiofó o caroço, antes de engoli-lo inteiro. Se passar, engole. Por isso jamais padece de entupimentos, como é comum em muitos meninos com a goiaba. E não para por aí não!! Como tem o fiofó daqueles que é porrudo, quando vai nadar em travessia a algum igarapé, tem aquele caprichoso cuidado de vedar tudo com folhagem e assim sai nadando despreocupada, com o rabo te-tei de folhas... mas protegido. É lendária sua sabedoria, mas eu deixo para experimentares isso, se quiseres... depois me conta tudo se de fato foi de boa medida. 
Há quem entre nestas matas com o propósito de dar cabo dos bichos, se ainda fosse para se alimentar  por precisão... Vão atrás movidos por seus instintos de ogro e até para atender o bel-prazer de outros que nem moram nos interiores. Já ouvi falar de festas regadas à maldita cachaçada onde os pratos principais são as caças. 
Vó Ana, em 05/11/2012
Pior que isso só as atitudes imbecis dos homens que pagam para entrar em muitos cantos do mundo para ter o prazer de dar um tiro bem na cara de um animal indefeso e em seu habitat natural, como as onças na Amazônia ou outros muitos na África
A guariba é também destes bichos visados e, reza a lenda, pode descer da árvore, se livre de um tiro mortal, virando meuã, com dentes, unhadas e pau ou pedras na mão. Quando atingida de raspão, passa folhas sobre o ferimento e esconde-se sem quem a encontre. É o que brota no imaginário...
Essas coisas são conhecidas na Amazônia. Vou lhes contar mais uma delas, ocorrida nas matas do Amapá. Vou lhes contar mais uma História da Vó Nikita... 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Histórias da Vó Nikita - O Poço Fundo (Um conto da Cobra Norato)

Em um grandioso rio, neste mundaréu que é a Amazônia, existia um recanto famoso por suas lendas e mistérios. Lugar de encantos, marcado por uma história conhecida e comprovada na mais ferrenha convicção por todos que ali transitavam... nas noites de lua cheia.
Trata-se do rio Jacaré Grande. Trata-se do imaginário popular, lá para as bandas de Breves. Trata-se de mais uma das histórias de Vó Nikita. 
Nikita (1986) Monte Dourado - PA
Ah, minha avó! Jamais posso eu esquecer de suas narrativas e do quanto me despertaram para a leitura. Histórias do pensamento  ribeirinho de outrora, meus antepassados, que ainda tem a força mística de produzir encantos. Acreditem! Através destas histórias neste blog, minha avó Ana reencontrou uma neta afastada e sem contatos há 20 anos. Faces que o destino nos mostra... pudessem ser sempre felizes. Bem-vinda Ana Caroline! Bem-vinda ao lar de sua avó Ana Castelo! A coluna mais antiga desta família, mulher perseguidora de sonhos e testemunha dos fatos que conta em suas Histórias da Nikita.

Era uma casa tão alegre! A festa corria solta da manhã até o raiar de um novo dia. Como sempre acontecia, os caboclos vinham de todas as paragens para a festança, capazes de remar horas seguidas em suas montarias para não perder a animação. Tempo de namoros - em uma destas formou-se o casal Nikita e Branco Velho, meus avós maternos - tempo de danças, fofocas, reaver os amigos e sair da rotina diária na vida ribeirinha. Esta era a festividade em um barracão, avançado na curva do rio e preparado para receber umas 100 pessoas. Festa que os ilustres anfitriões faziam sempre, já famosas, no surgimento de cada novo ano, chamando os parentes e amigos. Isso meus amigos era nos anos de 1930 em uma Amazônia encantada de histórias e superstições. Minha avó assim o disse. 
Em um destes dias, quando o pau torava e a caboclada dançava fervorosamente ao som do pistão, um ilustre visitante chega no local. Terno branco, chapéu de palha no melhor estilo, bem alinhado, com uma elegância e trejeitos que logo chamou a atenção das moças, sempre em buscas de bons partidos. Este com certeza era um... pensamento em cada mocinha solteira, admiradas do rapaz, que se revelou o melhor pé-de-valsa naquele local.
Nada de Uiara, nada de boto. O rapaz era conhecido por muitos naqueles cantos, apesar de conservar sempre um quê de mistério. Vez por outra sumia e reaparecia, contava histórias de andanças neste mundo e nada se conhecia de seus familiares. Seu surgimento causava uma ciumeira entre os caboclos, que não eram páreos aos seus galanteios com as moças, a esta altura animadas e desejosas de uma dança. Todas logo vinham engrossar as fileiras de admiradoras em uma saudação de suspiros unânimes: 
- Como vai Norato?
 
Cobra Norato (Ilustração do educacao.uol.com.br)
Solte a imaginação!! Deixo para você a interpretação da imagem!

O jovem, sempre cordial, era todo atenção às moças. Dançou com tantas quanto solicitado, tornando-se o protagonista maior no salão daquele famigerado barracão às margens do Jacaré Grande. Conversa vai e conversa vem, logo anoiteceu, mostrando o resplendor de uma belíssima lua cheia. 
Foi então que Norato mais uma vez deu pinta de seus ares misteriosos. Coisas de rapaz esquisito... no melhor da festa, quando os ponteiros do relógio caminhavam para a meia-noite, cismou de querer ir embora. Ora por que? Se lá fora há só o breu da noite e as horas vem anunciando um novo ano a despontar! O desejo de confraternização e amizade era mais forte do que nunca em cada coração, não só renovados na esperança, como também necessitados de exteriorizar, indistintamente, os melhores sentimentos em efusivos abraços. Principalmente entre as moças, eternamente sonhadoras, onde Norato era o alvo de seus desejos. Assim, não poderia - nem deixariam - de forma alguma sair do local, neste dia de lembranças únicas...  e impossivelmente críveis... como então se verá.


Brilha lua! Mostra tua beleza... cheia de graça, de luz e de encantos. Lua cheia é senhora da noite, farol nas matas distantes e inspiração aos corações... Não no de Norato. Triste e sozinho, vagando na noite encantada como a cobra maior do rio, revelada pelo pálido brilho de toda lua cheia. Vaga solitário, se escondendo de tudo e fugindo de todos, ocultando sua triste sina de encantado. Serpenteia nos rios e matas desabitadas o horror de um monstro lendário, descortinado e pujante em todo período da lua cheia, desde a meia-noite do primeiro dia.

Foto: Octavio Campos Salles
Fonte: cativagoogle.blogspot.com.br
Dizem que vive por aí, está no rio, está na mata. O caboclo ribeirinho o teme e qualquer banzeiro mais forte traz a lembrança de sua temida proximidade. 
Testemunhas oculares da cobra gigante quase não há, só as histórias  e a certeza de sua presença. Histórias como a do Poço Fundo, local desabitado há mais de 80 anos e com uma superstição viva no coração dos que transitam por ali. Nas noites de lua cheia, quem se aventura em passar perto, jura que ouve, com a atenção sedenta para as lendas, uma música de pistão soando na noite, seguida de murmúrios, canto do galo, latido, miado e um vozerio sem causa aparente... Parece uma festa!
 
  
Não podendo conter sua ânsia e impossibilidade de retirar-se, Norato vê a meia-noite aproximar-se como o pesadelo de seu destino. Falta pouco, seu corpo é tomado de uma febre repentina e suor crescente. Já não encara ninguém, sua face parece doentia, pálida e descamativa. Há um jeito de ocultar-se? Com as forças humanas que lhe restam pede a um dos anfitriões um local onde possa descansar um pouco, informa suspeitar de malária e é encaminhado para um dos quartos. Pede momento a sós, não quer ser procurado e nem assistido, alguns minutos de repouso são o bastante para recuperar suas forças.  Agradece e tranca a porta.  Em sua mente a oportunidade criada para sair do local pela janela, enquanto os festejos do ano novo distraem a atenção de todos. É hora de partir e deixar para trás as lembranças felizes. Serão seu alento e resto de humanidade quando na capa de cobra, por toda aquela sua angustiosa semana de lua cheia. 

Suposta foto de 1932, famosa entre os criptozoologistas. Mostra um Sucuriju Gigante, que foi morto na fronteira com a Venezuela pelos guardas de fronteira brasileiros. Serão verdadeiras as dimensões? Indiscutível, porém, os relatos de encontros com animais muito maiores que os atuais. Só um lembrete de onde nascem as lendas. Nem tudo é exercício da imaginação. 
Fonte da foto: northamericanmonsters.blogspot.com
Um novo ano é saudado com o entusiasmo de velhos comprades ribeirinhos. Por alguns minutos a atenção é toda centrada na confraternização no salão. Norato não está ali, fato inesquecível no coração de uma das jovens no local, cativa da paixão pelo rapaz. Foi ver as condições do mesmo, cuja informação circulante era que estava em repouso devido um mal-estar súbito. Bateu na porta - trancada - chamou e nada de respostas. A moça, com a preocupação dispensada a quem se gosta, olhou por uma fresta nas tábuas da parede. Horror!!! Seu coração acelerou ante a visão de um sucuriju gigante, com escamas negras e brilhantes na luz do lampião. Rolos grossos como nunca vira, espalhando-se por todo o quarto e querendo projetar-se pela janela. Desespero!!! Lembrou do jovem e foi tomada pela certeza de ter sido morto por aquele monstro. Isso tudo em segundos, culminando com o mais terrível grito que todos por ali ouviram. Espalhou-se o caos frente a informação de tal cobra no local. A casa rangeu com a algazarra e a cobra, sentindo as vibrações do desespero, rompeu a parede da casa mergulhando no rio com a força e peso de uma lenda. Atrás de si arrastou tudo ao fundo, nada restou, tudo foi tragado por um redemoinho gigante. Nem tábua, nem alicerce, nem gente, nem bicho... tudo sumiu como encanto no brilho daquela lua cheia. 
 

Restou esta narração, contada e conhecida por minha avó Ana (a Nikita), de um local encantado que sumiu com tudo que tinha, como um poço fundo, ecoando a música e murmúrios de uma festa sem fim na curva de um rio, o Jacaré Grande.  Lugar  de encantos e exercício da imaginação frente ao desconhecido, predisposto a acreditar em fatos como esse, onde reinam as lendas e, da boca dos mais vividos, aprende-se A LENDA DA COBRA NORATO.

Texto de Rogério Castelo baseado nas narrativas de sua avó Ana Castelo.
Olha aí, nada de gaiatice de que tô segurando a cobra!!! 
Pra mim essa é uma cobra-fêmea, é a Maria Caninana!!!
Nunca ouviram falar? De onde vocês acham que vinha o medo de Norato, 
apresentado como um sujeito de bom coração.
Ah!! Mas isso é uma outra estória!!!

terça-feira, 21 de junho de 2011

HISTÓRIAS DA VÓ NIKITA: Castelos em Macapá...

O destino e suas faces!

Acreditamos em tantas coisas... Sonhamos em alcançar o que nos faça felizes, buscamos e nos empenhamos na caminhada. Nossa história vai se construindo nesta lida diária e, muitas vezes, nem percebemos que de coisas simples e, às vezes, corriqueiras, novos caminhos vão surgindo, uma história vai se iniciando e a gente vai conhecendo uma face nova do destino. Os sonhos podem ser grandes, maiores, porém, são os desígnios de Deus! Cabendo a nós, envolvidos em mil nuances diante destas portas que se abrem, com ou sem nossa vontade, caminhar firmes, aprendendo, transformando, construindo e sempre optando pelas boas coisas.

"Palafita" - Foto de Nil Muniz
Foi um simples evento que determinou a vinda de minha avó Ana para cá, dando continuidade à construção de sua família: os Ferreira-Castelo do bairro do Trem em Macapá, outrora, ribeirinhos lá nas bandas do Jacarezinho, tantas gerações seguidas e muitos anos atrás.

São lembranças da Vó Nikita todos os acontecimentos aqui presentes.  Rotineiros também na época de sua bisavó Ana e avó Tereza (essa é a culpada do apelido que minha avó nunca gostou e que vou retratando aqui).

"Palafita" - Tela de Manuel Fernando Croskey 
Alexandre Paulo, seu pai (meu bisavô, que tive o prazer de conviver por um tempo) era um homem de singular descrição: branco, loiro, olhos claros e de uma beleza notável principalmente por seu caráter. Era trabalhador, de bons exemplos, gentil, parecendo ter sempre nos lábios um eterno sorriso. Tinha um irmão gêmeo, mas estes só conviveram até a adolescência. O destino mostrou uma de suas faces e levou Pedro Paulo. Homem de fé forte, isso lhe valeu sempre, principalmente nos momentos difíceis de sua vida. Sua vista perdeu-se para sempre quando estava em pleno vigor de seus quarenta e poucos anos, mal que também acometeria minha avó, e mostrou-se forte em seus momentos finais de vida, com a destruição em seu corpo por esse mal que chamamos de câncer. Assim era Alexandre, bonito por sua fé e gentileza. Seu casamento com Vó Marieta durou mais de cinquenta anos. Esta também tem em suas características fatos a descrever: morena, dessas caboclas interioranas com os cabelos compridos e aparência com traços indígenas. Mesmo em sua avançada velhice não teve cabelos brancos... e sem apelar para tinturas. Seu retrato não foge do que é típico nessas bandas do norte, onde as morenas não são altas, com cabelos negros, encaracolados ou lisos, e donas de uma brejeirice a “mundiar” o caboclo. Fala-se tanto do boto, mas não é páreo aos encantamentos de uma bela amazônida com um olhar sedutor a lhe conquistar.

Esse é o casal que vivia às margens do Jacarezinho, meus bisavós maternos, em um barracão muito simples e tão escondido naquelas curvas do rio.  Testemunhas e personagens dessas histórias que estou a lhes contar.

"Amazônia" - Tela de Cecília Queiroz
Não quero mostrar um quadro enganoso, era muito difícil a vida naqueles tempos. Muito difícil mesmo!! Tudo era isolado e sem ajuda diária, valendo-se da força de vontade e providência divina para sobreviver. A malária não dava tréguas, o caboclo podia ser acometido várias vezes. Um local de leishmaniose, pesadelo e perigo circundante naquelas matas, outro mal muito temido. Morria-se de sarampo, de meningite, rubéola e febres desconhecidas, que jogavam o caboclo na rede e o prostravam de maneira sofrida ou irreversível. E ainda não falamos dos encontros com a combóia, escorpiões, arraias, os vampiros... A raiva é até hoje um mal sem cura. O ribeirinho preferia enfrentar o sucuriju com o terçado em mãos do que cair nas mãos do destino num triste episódio de ser picado por esses bichos. Hospitais e médicos eram muito distantes, só nas cidades, dia e meio de remada e de muito sol na cabeça. Uma vez por ano é que apontava por aquelas bandas algum batelão com padre, médico e, quem sabe, juiz. Época de batismos, casamentos e "consulta com o dotô". Pouco tempo de cidadania, grande período de ostracismo...

"Barracão" - Desenho de Rogério Castelo
Euclides da Cunha fincou pés também nesse mundão verde da Amazônia e conheceu um pouco da realidade desse povo à margem da história. Se viu no sertanejo um forte, pode testemunhar que o ribeirinho é um bravo.

Nesse contexto que vivia Alexandre, esse ribeirinho bravo em lutar pelos seus. Foi seringueiro, "soldado da borracha", num tempo em que o mundo explodia na crueldade da guerra. A borracha tinha valor e, como ele, muitos homens entravam nas matas para colher o látex. Todo dia a rotina. Pegava seu facão e cedinho estava em busca das árvores. Riscava  mais  de cem, deixando a seiva cair no cadilho. No caminho inverso, ia recolhendo no balde o que tinha escorrido. Muito trabalho... Quando terminava soava a sapopema ao longe, avisando para os seus de sua vinda. Ana, uma de suas filhas (minha avó), corria a preparar-lhe o café com farinha e, junto com os irmãos,  acendia  o braseiro para a borracha. Do que era colhido formavam umas bolas e todo final de semana vendiam. Tantos dias como esse... Isso durou enquanto Alexandre tinha as vistas. O destino mostrou mais uma face difícil e tirou-lhe da condição de provedor da família, passando a ser cuidado por sua esposa Marieta e filhos. 
 
Seringueiros (respectivamente, ilustração do Pará Histórico e desenho de Percy Lau)

O que o sofrimento não destrói, fortalece, e de forças em Deus que Alexandre sobrevivia com sua família nas margens do Jacarezinho, rio no grandioso Estado do Pará.  
Fui testemunha de sua fé, todo dia fazia orações em vários momentos. Quando passou uns dias em casa, preparava-lhe um pequeno oratório e o conduzia até lá. Não o vi falhar ou faltar com o ânimo nisso.
Alexandre deu seu adeus no ano de 1984, muito debilitado, mas sempre contínuo na fé.  Em sua história muitos fatos que sempre gostei de ouvir e me por a imaginar. 
"Sapopema" - Foto de biblioteca.ibge.gov.br
Conta-se que certa vez em que estava sozinho no trapiche em frente ao barracão, lá no lendário Jacarezinho, ouviu um barulho no matagal próximo, estalos de pau quebrando. Aguçou os ouvidos e percebeu vir em sua direção passos rápidos e pesados. As tábuas do trapiche rangeram ante o peso das passadas apressadas, seguidas de uma respiração profunda e muito sonora a cercar-lhe. Seja o que fosse não respodia às perguntas feitas e ouvia-se apenas aquela respiração cansada e puxada rodeando-lhe sem dizer-lhe palavra. Seu corpo arrepiou-se com o frio sentido, indícios do medo, mas sua fé foi sua força  e com atitude de oração afastou aquilo dali.
Todos daquele barracão cresceram como homens e mulheres fortes. As circunstâncias fizeram de todos caboclos "virados". Todos os ofícios eram desempenhados. Alexandre formou uma família de trabalhadores e não faltou a manutenção em seu lar quando suas vistas se foram. Seus filhos eram Nilzinho (Sebastião), Lóla (Maria Vitória), Ana, Mundinha (Raimunda), Raimundo (Badat) e Lourival.
Os ofícios da vida ribeirinha foram aprendidos. Só não lhes foi dada a oportunidade de estudo quando crianças e adolescentes. Nos fenômenos naturais quanto desconhecimento... Foi numa situação engraçada que viram o eclipse lunar pela pimeira vez. Quando a lua começou a ficar vermelha, Alexandre chamou a filharada e começaram a rezar no trapiche... até que tudo voltou ao normal!! Só depois que explicaram-lhe o fenômeno. E o eclipse solar... Ah! esse foi uma verdadeira lenda. Os seringueiros na mata viram aquele dia claro começar a fechar estranhamente. Chuva? No regresso para casa anoiteceu repentinamente. As galinhas e jacamins estavam todas recolhidas ao puleiro e árvores altas... em plena manhã, com aquela noite misteriosa. As sapopemas ecoaram ao longe, eram os caboclos perdidos na mata, sem poronga e sem visão de nada. Da casa batiam as panelas e paus para tentar orientar o caminho. Tão repentina quanto começou, foi o fim daquela breve noite. As aves desceram ao terreiro e tudo voltou ao normal... fora o susto.
Voltemos nossa atenção para Ana. Daquela geração é a última e dela passo a narrar daqui para frente.....


continua .....

quinta-feira, 19 de maio de 2011

HISTÓRIAS DA VÓ NIKITA - O Encantado

Se você vivesse ao “Deus dará”, numa região desconhecida, cercando-se de muita coisa estranha e sem que soubesse as causas, em que acreditaria para agir sempre com o mínimo de bom senso? Às experiências vividas e dividas por outros? .... O caminho natural e fácil.
Nos tempos de menina, minha avó Ana presenciou  e viveu algumas dessas. Uma criança tentando entender o mundo em que vivia e, em posse disso, como muitos outros, propagadora de um saber local e único.
Histórias e crendices presentes e marcantes na cultura ribeirinha... Fundamentos a reger a vida de comunidades inteiras, durante gerações seguidas.  
Histórias do interior.... Histórias da Amazônia.
Na grande baía do Jacaré Grande, subindo um pouco um pequeno igarapé, ficava o barracão dos Nunes. Era uma família numerosa, algo comum nesses interiores, onde as caboclas tinham de dez filhos para cima.
Minha avó Ana, matriarca de dez filhos, foi testemunha desta história, na adolescência de seus catorze anos. Hoje, com seus oitenta e três, ainda têm em suas lembranças esses fatos muito nítidos, conforme passo a vos narrar a seguir.
Naquele tempo as famílias viviam da caça e, principalmente, da pesca. Havia uma fartura dessas coisas. Os ribeirinhos distribuíam-se por ali, ocultos nessa exuberância natural, todo dia lutando e buscando novas coisas por sua sobrevivência. Verdadeiros desbravadores, ocupando lugares tão longínquos e desfavorecidos de nossos confortos atuais, que o contentamento geral era ter com que prover sempre suas famílias no dia-a-dia e - abençoe Deus para isso - gozar sempre de boa saúde. Assim era na Amazônia, assim era naquelas matas... Selvagens, virgens e misteriosas.
Outras culturas que ajudavam na obtenção de um pouco de renda eram: a coleta das castanhas da andiroba e muru-muru, para o azeite a ser vendido na cidade, e a borracha extraída das seringueiras. Cedo o caboclo ia para a mata riscar as árvores marcadas para isso.
Uma novidade naquelas bandas era a extração de madeira para fazer dormente. Dava algum lucro, mas sempre era muito trabalhoso. Tinham que arrastar a madeira para a beira do rio e, desprovidos de embarcações, faziam uma jangada e nelas se arriscavam pelas águas sempre perigosas do Jacarezinho. Levando o “progresso” para a cidade... Levando os dormentes para as linhas ferroviárias da época.
O Alípio acordou bem cedo para tirar madeira naquele dia, era um dos varões da família Nunes. Rapaz impetuoso, menos de vinte anos, embrenhava-se sempre nas trilhas da mata sem conhecer o que era perigo.
Pegou o seu machado, facão, lanterna e tomou um rumo tantas vezes percorrido. Primeiro tinha que encontrar bons troncos, talhar o dormente e depois avaliar a situação para melhor transportá-los dali. Isso consumia sempre umas boas horas do dia.
Os Nunes reuniram-se para a caldeirada de peixe no jantar e constataram então a demora do rapaz, imaginavam sempre que estava com um ou outro. Mas, todos ali, nada do Alípio. Já era fim de tarde e o sujeito não retornara desde cedo. Numa mata fechada, com onças, cobras, escorpiões e “visagens”, perder-se é sempre algo perigoso e preocupante. Os caboclos deram uma batida nas proximidades e nada encontraram, para tristeza e desespero de Dona Cordeira, que imaginava seu filho envolto em muitos perigos.
Anoiteceu e deixaram as buscas para o dia seguinte. O Alípio devia ter se metido em mata muito distante. Era um rapaz destemido, mas também convicto até demais disso!
Procuraram no dia seguinte, avançaram na mata, gritavam até se esgoelar, batiam nas sumaúmas com os facões (se você não sabe, esse é um “telefone” da selva), entraram por todas as trilhas conhecidas e nada. A essa altura Dona Cordeira era só prantos. 
Alguns rapazes, avançando um pouco mais na mata, relataram aos outros que acharam o machado e facão do Alípio por cima de uma tora, mas ele não estava ali. Só o que viram foram umas pegadas que seguiram e estranhamente viram terminar às margens de um igarapé distante. Deixaram lá os pertences do mesmo, pois se aparecesse podia precisar. 
Mais uma noite e o Alípio sumido.... Onde estaria e o que teria lhe acontecido? Era o que todos se indagavam.
Três noites e a mesma aflição. Numa ânsia danada, já tinha até quem o dava por morto naquelas paragens. Na casa de minha avó ajudaram também nas buscas.
No quarto dia, quando se encontrava apenas uma de suas irmãs no barracão, preparando o almoço no jirau, qual não foi sua surpresa quando deparou com um assustado e desfigurado Alípio espiando e dizendo:
- Não fala nada prá ninguém que tô aqui! Onde tô é muito bonito! É uma cidade muito bonita onde eles me levaram no fundo do rio! Não queriam me deixar vir, mas eu pedi muito, só prá buscar minhas roupas e voltar. Lá é muito bonito, muito bonito! Não fala nada prá ninguém...
E foi com esse louco palavreado que o Alípio apareceu a sua irmã. Referia-se sempre a “eles” sem citar nomes e a falar de uma cidade nunca vista. Quando viu em sua irmã a intenção de chamar alguém correu e desapareceu na mata.
Os Nunes quando se reuniram e souberam da história, ficaram com uma mistura de alívio e preocupação, o que se passava com seu irmão? Chegaram até a brigar com a moça acreditando que a mesma não tinha nada feito para que ele ficasse.
Continuaram as buscas nos dias seguintes e o rapaz desaparecido naquela mata fechada, onde a noite não se enxergava nem a própria mão.
Acreditando se tratar de algo sobrenatural, chamaram o Manoel Dias, um curandeiro e benzedor muito conhecido naquela localidade. Mistura de médico, psicólogo, padre e "espantador de visagem". Com suas mandingas ele disse que o Alípio estava encantado por Uiara e que deveriam abandonar as buscas que não encontrariam o rapaz. Estava encantado, escondido e possesso do espírito do rio. O que deveriam fazer era aguardá-lo escondidos na casa. Ele ia aparecer. Também deveriam deixar atada a rede mais forte que tivessem e uma cordas bem resistentes.
Dona Cordeira fez segundo as recomendações e, no dia seguinte, deixaram suas ocupações e ficaram no barracão escondidos, à espera do Alípio.
No fim da tarde, finalmente apareceu “o encantado”. Estava desconfiado, com um agir diferente. Pelas frestas das casas viram o estranho Alípio ficar à espreita para ver se tinha alguém. Constatando que não, sorrateiramente saiu da mata e entrou no barracão. Seus irmãos então, assim que o rapaz entrou, fecharam as portas e janelas impedindo a fuga.
O encantado tentou de todas as formas se desvencilhar do braço de seus irmãos. Eram caboclos criados no açaí de maior sustância, mas fizeram muita força para conter o encantado, principalmente porque diziam que ele estava com a pele muito lisa, escapando várias vezes e quase fugindo. Se fossem só três ou quatro, ele teria conseguido.
Todos seguraram o Alípio e o colocaram na rede atada, amarrando-a com muitas voltas da corda. Seguraram também os punhos, pois balançava tanto a ponto de quase rasgar a rede. Falava sempre para deixar-lhe voltar para a cidade.
O Manoel Dias foi chamado às pressas e começou a fazer suas benzeduras até o Alípio se acalmar. Seja de que loucura o rapaz estivesse, foi se acalmando até não manifestar mais o desejo de correr para a mata. Os Nunes mantiveram a guarda nos dias seguintes e o Manoel Dias continuou com suas benzeduras.
Após uma semana foi declarado a quebra do encanto, o Alípio estava livre do espírito do Uiara.

Ana Castelo
Bem, amigos...

Inúmeros casos como esse ocorreram na Amazônia e, por acreditarem em benzedores como o Manoel Dias, outros muitos jovens foram libertos de ter uma vida, sabe-se lá como, de perambular como loucos pela floresta, transformados em almas errantes num breu mortal. Tal Victor (de Aveyron), mas na floresta amazônica, homens perdidos vivendo um encantamento em suas cabeças.  

Morte certa e em poucos dias.