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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Bíblia do Centenário da Assembleia de Deus de Capanema - PA (2016)

Vi essa Bíblia Comemorativa com um amigo na Escola Bíblica Dominical (EBD), sobre o Centenário da Assembleia de Deus de Capanema, e imediatamente fiquei com vontade de conhecer a história. É uma edição bonita, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, com o diferencial de um encarte especial totalizando 28 páginas com informações históricas.  
Capanema é um município paraense, com população próxima de 70 mil habitantes, onde a Igreja Assembleia de Deus foi fundada em 03 de Março de 1916
A leitura foi realizada em paralelo com a história do assembleianismo no Amapá, que teve sua primeira congregação em 1917, tendo em comum alguns evangelistas e pastores.


Nos textos iniciais, pontos rotineiros no estudo de todas as congregações assembleianas:
- A visão sobre o avivamento pentecostal norte-americano no início do século XX (sob a liderança do pastor Charles Fox, em Topeka - kansas);  
- O movimento pentecostal em Los Angeles na rua Azusa (com o pastor Willian Seymour); 
- A história dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg na jornada peculiar e extraordinária à Belém do Pará em 1910 (que resultou na fundação da Assembleia de Deus no ano seguinte, como denominação evangélica).  
As particularidades da AD Capanema iniciaram na década de 1910, quando foi visitada por colportores como Daniel Berg e Clímaco Bueno Aza no trabalho evangelístico que faziam nas comunidades de entorno da estrada de ferro Belém-Bragança. O texto cita o ano de 1912 como uma das datas de passagem evangelística, mas a fundação da congregação em Capanema foi oficializada com o estabelecimento do primeiro pastor, Isidoro Saldanha, em 1916.
Esses pontos são parecidos ao caminhar assembleiano no Amapá, que teve a visitação evangelística de Clímaco Bueno Aza em 1916 e a fundação congregacional em 1917 com a oficialização do primeiro culto e batismos.  
A consolidação, porém, da AD em Capanema foi mais rápida e dinâmica que em Macapá, pois os pastores residiam no lugar e o primeiro templo foi inaugurado em 1921, facilitando a organização de ministérios como o Coral e Círculo de Oração. 
Em minha cidade, Macapá, por uma série de fatores, como o isolamento e dificuldade de acesso, a organização foi a passos mais lentos. Os primeiros pastores fixos se estabeleceram na década de 1940, o primeiro templo de alvenaria foi inaugurado em 1958 e a maioria dos departamentos na igreja foram organizados a partir de 1962, com a chegada do pastor Otoniel Alencar.  
O encarte traz também fotos de várias congregações de Capanema e a lista em ordem sequencial de todos os pastores da igreja pioneira, com breve histórico. 
Além do Evangelista Clímaco Bueno Aza (colportor) e Daniel Berg (que realizou visitas e batismos em minha cidade), outro missionário que tivemos em comum foi o pastor Deocleociano Cabralzinho de Assis, que presidiu a AD em Capanema em dois momentos (o intervalo foi o estabelecimento em Macapá, onde lançou a pedra fundamental para a construção do primeiro templo de alvenaria em 1948).
Gosto de estudar essas histórias especialmente quando se desenrolam no nível de curiosidades e esse foi o ponto que senti falta no encarte. Em nossa congregação, por exemplo, temos o registro dos primeiros novos convertidos, data e peculiaridades dos primeiros batismos nas águas e no Espírito Santo, e histórias atípicas edificantes para serem conhecidas pelas novas gerações (como a jornada do evangelista Clímaco Bueno Aza para aportar nessas bandas, a prisão que lhe impuseram, a reação do padre local mandando destruir as Bíblias e literatura evangelística, e o testemunho de um judeu ao ver o batismo de uma irmã no Espírito Santo em 1917). Gostaria de ver temperos como esses, de valorização à informalidades históricas no encarte. Acredito que a congregação em Capanema deva ter relatos extraordinários também.
Obviamente, conferi somente o encarte. Esse ano estou fazendo a leitura bíblica na edição com a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Não sei se a Bíblia Comemorativa de Capanema foi nas versões Corrigida e Atualizada de João Ferreira de Almeida. Essa que chegou em minhas mãos é na caracterização Atualizada em letra gigante (minha preferida também).
 
Ah, estou na expectativa do lançamento da Bíblia Comemorativa do Centenário da Assembleia de Deus no Amapá. Está quase saindo, e eu na vontade crescente de dar aquela saboreada...  

Parabéns aos irmãos de Capanema pelo abençoado Centenário! E todos nós, aproveitemos a boa oportunidade e bem-aventurança de ler, conhecer, aprender e viver a Palavra do Senhor através das Sagradas Escrituras. 
Graças a Deus por tudo!

  

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Projeto Jari - A Invasão Americana (Jaime Sautchuk, Horácio Carvalho e Sérgio Gusmão - 1979)

Os autores desse livro estudam e documentam uma das mais típicas manifestações da economia política da ditadura militar instalada no Brasil desde 1964. Sob vários aspectos, os dados e as análises apresentados aqui mostram como o estado foi levado a atuar em contradição com os interesses da maioria da população do país.
O Projeto Jari é bem uma expressão dessas iniciativas. Mostra, de forma bastante clara, vários aspectos muito importantes do modo pelo qual a ditadura foi levada a interferir na vida econômica e política do país, prejudicando interesses presentes e futuros da sociedade.
OCTÁVIO IANNI 
(Trecho da apresentação do livro)

INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: Projeto Jari: A Invasão Americana - As Multinacionais estão saqueando a Amazônia
Autores: Jaime Sautchuk, Horácio Martins de Carvalho e Sérgio Buarque de Gusmão / Apresentação de Octávio Ianni
Editora: Brasil Debates
Páginas: 110
Ano: 1979

A obra foi publicada no período da ditadura militar, em 1979, voltando a atenção para o Projeto Jari em exemplificação à uma crítica alarmante e de denúncia à ação de grandes empreendimentos estrangeiros na Amazônia. A visão é nacionalista, justificando-se em autores militantes da causa, com uma abordagem que em certos momentos radicaliza, instigando percepção de vilania e exploração indiscriminada de nosso patrimônio, como se tudo se resumisse a isso.
Interessante que a publicação coincide com o momento em que o empreendimento da Jari tomava novo fôlego em seus projetos, devido a recente instalação da fábrica de celulose no final da década de 1970. A vinda desta se deu em uma jornada épica e lendária, despertando entusiasmo ao progresso pelos vários desdobramentos associados. Coisa ainda não experimentada em uma região secularmente marcada por riquezas naturais em paralelo à exploração da natureza e do homem.
Os autores situam a questão do beneficiamento se direcionar, sobretudo, aos mega empreendimentos estrangeiros, representantes do imperialismo americano. Essa compreensão, em linhas gerais, está nos incentivos fiscais que recebiam do governo. Financiamentos que minimizam os custos, potencializando maior lucro na exploração das riquezas e da mão de obra local - o que restava para a sociedade brasileira. A caracterização é de entreguismo e uma maquiada exploração, como fora em outros tempos, nas fases do coronel José Júlio de Andrade e dos portugueses.

Daniel Keith Ludwig
Um pouco mais novo, gordo e alegre (pág. 18)
Há radicalização nesse contexto, a começar na primeira parte, em que o empresário Daniel Keith Ludwig é apresentado em uma biografia excêntrica, tendenciosa à percepção de riqueza associada à exploração de países subdesenvolvidos, contando com aliados corruptos (citando-se gângsteres e ditadores) em governos subservientes ao imperialismo americano, dispostos à arranjos favoráveis. Na política de entreguismo do governo ditador, foi citado um projeto de formação de grandes lagos, que inundariam boa parte das comunidades ribeirinhas para facilitar a entrada de mega navios no escoamento das riquezas. 

Um hotel no estilo dos conquistadores da África, em Monte Dourado. Uma fábrica que pode ser levada de volta quando acabar a matéria-prima (Pág. 47)
A abordagem dos trabalhadores e cotidiano na Jari é o segundo aspecto tratado, em prol do entendimento da visão exploratória. Citam-se privilégios aos cargos mais elevados, como exclusividade para comprar bebidas e frequentar o mais famoso clube - a Jariloca. A condição de vários trabalhadores é apresentada, destacando-se a exploração e suporte precário em alguns cotidianos (como o fornecimento de alimento aos trabalhadores da mina de caulim). A realidade do Beiradão também é mostrada em seu desenvolvimento, associado à exploração comercial e sexual. Os autores registraram até o preço do programa com as prostitutas. Muita coisa parece generalizada e fatos isolados supervalorizados para ressaltar o cenário de exploração do homem.
Área do Projeto Jari (Pág. 60)
A obra finaliza instigando a percepção dos empreendimentos estrangeiros na caracterização de proteção pelo governo, com mão de obra explorada, instalação em grandes latifúndios sem o devido reconhecimento do tamanho real (para a fuga dos impostos), tendo política contra a reforma agrária, degradação ambiental, prejuízo aos povos da floresta e recebimento de financiamentos governamentais que nem sempre resultavam em beneficiamentos à região. Nesse último aspecto o livro cita a história de um empresário estrangeiro no Pará, que recebia incentivos da SUDAM, usou técnicas de guerra para desocupar a região para a posse e nela desenvolveu apenas atividade madeireira, não planejada no incentivo governamental que recebia. 
Essa é a Amazônia vista na abordagem do livro sob ação estrangeira. É muito coerente e de importantes reflexões, mas também rolou exagero sensacionalista. O Projeto Jari teve uma sucessão de fracassos que não foram abordados e que estavam em andamento. Não se resume a isso, mas foi o que entendi. 
O dinheiro do Imposto de Renda, manipulado pela SUDAM,
 também engorda as finanças da Jari (Pág. 76).
O povo do Jari é pobre. As casas do Beiradão são construídas
 sobre o rio ou terrenos alagadiços (Pág. 28).

É mais uma importante obra que pode ser consultada na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

...E o branco chegou com a cruz e a espada (Pe. José Oscar Beozzo, 1987)

"O título desse livro lembra-nos a sorte triste e cruel de milhões de indígenas a partir do momento em que os espanhóis e portugueses aportaram nestas plagas. 500 anos de sangue derramado, de culturas agredidas, de povos crucificados: a brutal história de séculos de genocídio e etnocídio. Havia, é verdade, também quem defendesse estes povos dando prova de amor maior, mas nem por isso o curso da história mudou. O holocausto prosseguiu através dos séculos."
ERWIN KRAUTLER 
(Trecho do texto de apresentação no livro)

Publicação de 1987, do Pe. José Oscar Beozzo, com abordagem sobre a colonização do Brasil e implicações para povos indígenas e afrodescendentes. Resulta de curso de história ministrado pelo autor na cidade de Belém, em 1985, relacionado ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário), dando ênfase à Região Norte.  
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: E o branco chegou com a cruz e a espada
Autor: Pe. José Oscar Beozzo
Editora: CIMI Norte II 
Páginas: 199
Ano: 1987


A visão sobre o indígena é a que tem maior destaque no livro, e o aspecto que se apresenta de forma mais interessante é a divisão dessa história em determinadas fases.
- A primeira vai da 1500 à 1755. Período do descobrimento, quando o Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa, até a expulsão dos jesuítas e de outros missionários dos aldeamentos indígenas. Os textos ressaltam a ação de catequese e uso da mão de obra desses povos em um sistema de padroado da igreja pelo estado.
- De 1755 à 1910. Período marcado pela administração de leigos responsáveis pelas aldeias, havendo abandono e violência gradual com a ocupação das terras no Norte. A Cabanagem é citada nesse contexto com o indígena unindo forças às massas desprestigiadas pelo estado.
- 1910 à 1971. Fase em que os indígenas são objeto de atuação do estado, com políticas mais específicas, primeiro através do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e depois pela FUNAI (em substituição ao SPI). Vemos também a ação de  missões ligadas à Igreja Católica e Evangélica. Nessa fase ocorreu a ditadura militar e reformulações no catolicismo através do Concílio do Vaticano II (ambos na década de 1960) com desdobramentos impactantes para os povos indígenas de forma positiva ou não.
- De 1972 à 1985. Essa fase iniciou com a criação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) em um contexto de autoritarismo e luta por direitos diante dos planos de desenvolvimento no Norte pelo governo militar. A ação é marcada por impactos aos povos indígenas, através de rodovias sem planejamento ambiental, criação de latifúndios, pecuária invasiva, incentivos fiscais para empreendimentos estrangeiros sem estudos específicos, desmatamento rotineiro, poluição, violência no campo, entre outros aspectos. O CIMI, reformulado pela modernização católica resultante do Concílio do Vaticano II, engajou-se em lutas sociais. O projeto Calha Norte foi citado como referencial dos planos do governo nos desdobramentos citados.

Igreja e Estado operando em conjunto para cativar o índio (Ilustração do livro)
Na questão do negro os pontos que chamaram mais atenção foram:
- O posicionamento da igreja ante a escravidão: No sistema de padroado pelo estado, com os padres como funcionários públicos, havia conivência com absurdos, citando-se o Padre Antônio Vieira, que via a escravidão como algo bom para o negro em face das desgraças em seu continente, como se fossem os culpados e assim o trabalho forçado no nosso país era como um purgatório para eles.
- Outra coisa curiosa e desconhecida era o planejamento dos escravagistas em adquirir escravos de diferentes etnias, numa forma de impedir união e fortalecimento. Muitas vezes eram de povos inimigos que, segundo o texto, delatavam as partes contrárias que planejavam fugir.

A escravidão no Brasil (Ilustração do livro)
Nas abordagens finais o autor cita o Concílio do Vaticano II e disposições que aproximaram missionários com a Teologia da Libertação e envolvimento com questões sociais, como o engajamento nas CEBs (Comunidade Eclesiais de Base).
Engajamento católico nas CEBs (Ilustração do livro)
A obra preservar os textos conforme a exposição oral nos cursos, e essa informalidade, que visa a facilitação no entendimento, por outro lado é o aspecto que não curti no livro. Passa a percepção de uma série de discursos e reportagens como um amontoado de informações, faltando uma junção metodológica entre elas, um elo de continuidade, que certamente foram mencionados no curso, mas que não se fazem notar na publicação.


Disponibilizado para consultas
na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá 
ou nesse LINK.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A ocupação desordenada da Amazônia e seus efeitos econômicos, sociais e ecológicos (Juraci Perez Magalhães)

Interessante que o desenvolvimento sustentável, apesar de não ser um termo que apareça literalmente nessa obra, está implícito e é o direcionamento no entendimento à fatores que desencadearam uma desordem na Amazônia (pelo descaso) e, principalmente, se reflete nas projeções e políticas que se adequam ao cenário ambiental (ou deveriam).
A obra é de 1990, onde o termo era novo, se consolidando na ECO-92, mas a percepção sobre ele vinha de lutas sindicais dos seringueiros que propunham a formação de reservas extrativistas em uma dinâmica inovadora para o desenvolvimento na Amazônia.
Esse cenário agitava o contexto da publicação, principalmente pela recente morte do Chico Mendes, e a proposta que o autor apresentou foi um estudo sobre a ocupação da Amazônia, percebendo os desajustes que levaram à desordem no progresso e entendendo as medidas necessárias para as transformações buscadas.
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: A ocupação desordenada da Amazônia e seus efeitos econômicos, sociais e ecológicos
Autor: Juraci Perez Magalhães
Editora: Gráfica e Editora Completa Ltda 
Páginas: 112 
Ano: 1990
O primeiro momento vê a ocupação da Amazônia em diferentes fases históricas, tendo em comum fracassos, citando-se a política ocupacional incentivada pelo Marquês de Pombal no século XVIII, o projeto da Fordlândia no Pará para extração do látex, a sedução à migrantes nordestinos como soldados da borracha, as políticas de incentivos fiscais para atrair empreendimentos industriais e desenvolvimento de pecuária no governo militar, e o maior exemplo de fracasso empresarial na Amazônia (o Projeto Jari idealizado por Ludwig). Todos esses momentos atraíram muitas pessoas e o insucesso nessa ocupação, na caracterização de desordem, foi determinado pela ausência de técnicas adequadas para a realidade ambiental. 
Os capítulos II, III e IV exemplificam essa questão, cheia de falhas e desacertos, focando especificamente o desenvolvimento incentivado no governo militar. Coisas que, relativamente, foram vistas em outros momentos também. Havia grandes extensões de terras desocupadas e em cima disso foram criadas políticas e instituições para atrair e apoiar empreendimentos. Foi o caso da SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e do I PND (Plano Nacional de Desenvolvimento). Este último é tratado como um dos maiores incentivadores de fracassos (e não à toa). A política era extremamente ufanista e ousada, se prestando à resolver a situação do nordestino afligido pela seca, colocando-o em uma região rica em recursos. Slogans como esse eram comuns. No suporte, a idealização de rodovias que integrariam a Amazônia (como a Transamazônica, a Belém-Brasília e a Perimetral Norte), o incentivo para o estabelecimento da pecuária e os financiamentos facilitados para a entrada de empreendimentos.
Muito entusiasmo e pouco investimento na prospecção da região para identificar manejo adequado, que redundaram em fracassos, comprovando-se em pouca fertilidade do solo, várias pragas agrícolas, degradação ambiental através do desmatamento, impactos sobre a fauna e flora, choque com os povos nativos, descaso com a vocação potencial da região, vinda de aventureiros que aproveitaram os incentivos fiscais para enriquecimento, formação de grandes latifúndios, poluição, violência no campo, insucesso em culturas introduzidas, desenvolvimento de pecuária por sulistas em regiões com história extrativista onde os fazendeiros descartaram o manejo e combateram as comunidades assentadas nessa cultura, alteração de ciclos hidrológicos, efeitos sobre o clima e microclima, danos ao solo, desertificação, entre outros aspectos.
 
O capítulo V explana sobre a região em diferentes contrastes, representados pelo homem, pelos recursos naturais e pela necessidade de preservação, com desdobramentos meio. Mostram-se efeitos nocivos das ações do PND sem um adequado planejamento. Também são norteados fatores necessários para a ocupação organizada e progresso, que deveriam preservar recursos naturais renováveis, fixar o homem no campo evitando o desemprego, respeitar a vocação regional e evitar o desmatamento. 
A problemática de vários povos, principalmente os indígenas, é levantada em considerações impactantes.
Esses aspectos de visão sobre o homem e sobre a natureza em suas peculiaridades foram ressaltados para direcionamento no desenvolvimento e ocupação.
 
A obra finaliza com mitos sobre a Amazônia, refutados individualmente nos seguintes pontos: sobre a Amazônia ser o pulmão do mundo, ter solo fértil em face de sua opulência, ser intocável ou a ocupação estar ocorrendo racionalmente.
Muito interessante, apontando caminhos para a sustentabilidade que respeitem os elementos naturais e o homem nesse meio.
Vou deixar em registro final uma citação da obra, extraída dos estudos de Euclides da Cunha, logo no começo do livro, de que o homem na Amazônia é como um intruso impertinente. Em termos práticos significa dizer que ele viu a floresta como uma desordem e procurou organizá-la a seu modo. Foi o que fez políticas arcaicas como os primeiros PNDs e ainda tem acontecido nos dias atuais.
 
O livro faz um passeio por essas coisas, chamando atenção com uma caracterização pioneira em sua época pelas discussões provocadas. A única coisa que não curti foi a metodologia conservadora, da época de publicação, sem um mínimo de ilustração além das capas.

Disponível para consultas 
na Biblioteca Ambiental da SEMA 
em Macapá

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Igreja dos Pobres: Resistências Eclesiais no Norte do Brasil, 1966-1983 (Walbi Silva Pimentel)

A Igreja dos Pobres - Resistências Eclesiais no Norte do Brasil (1966-1983) trata sobre o desenvolvimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Amapá, num contexto histórico de abertura da igreja aos leigos e aos pobres no período marcado pelo autoritarismo político da ditadura militar, onde as CEBs se tornaram frente de luta por direitos básicos num vasto território de presença precária do Estado.   
O autor, Walbi Silva Pimentel, faz  um apanhado histórico acerca da presença da Igreja Católica no Brasil, do período colonial até o século XX, procurando perceber as relações existentes entre a Instituição e o Estado. Analisando mais aprofundadamente essas relações na Amazônia, buscou-se perceber o caminhar histórico da Igreja que no Amapá, assim como em outras regiões do Brasil, não só modificou os hábitos religiosos das populações locais como também acabou por sofrer modificações devido as interações. (SINOPSE DESCRITA NO LIVRO)
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: A Igreja dos Pobres: Resistências Eclesiais no Norte do Brasil (1966-1983)
Autor: Walbi Silva Pimentel  
Editora: Prismas  
Páginas: 190  
Ano: 2016
A obra traça um perfil do catolicismo no Amapá a partir do envolvimento com as questões sociais no período da ditadura, onde o contexto da igreja teve transformações progressistas que mudaram sua ação na interação com as comunidades. O autor, Walbi Silva Pimentel, historiador amapaense e militante nas CEBs, dá destaque à esse período de interação transformadora na disposição da igreja, mas iniciou sua pesquisa com a percepção histórica do catolicismo desde o colonialismo.
No primeiro momento de análise, vemos a igreja como instrumento do estado, que a patrocinava estendendo a conquista de fiéis para formação de súditos também, em locais ermos e sob influências contrárias. Essa disposição vinha de muito tempo e como exemplo foram citados doutrinamentos religiosos no contexto medieval, que buscavam o desenlace da influência árabe na Península Ibérica; como não poderia faltar, o autor também citou ordens religiosas apoiadas pela coroa na colonização e catequese do Novo Mundo, destacando-se os jesuítas, carmelitas, mercedários e franciscanos.

Mapa: Presença das ordens religiosas na Amazônia colonial (pág. 81 do livro)
Aspecto em especial nesse contexto foi a interferência direta do estado na hierarquia e caracterização da igreja, que a tornava mais política do que espiritual. Um evento em especial desse embate no Brasil aconteceu no século XVIII, quando os jesuítas foram expulsos em razão do desenvolvimento de propósitos diferenciados dos interesses governamentais, como a oposição à mão de obra indígena e ações com hierarquia própria. Esse momento fragilizou o catolicismo e assim ocorreu adesão e introdução de muitos ritos e tradições do misticismo popular, outrora repelidos, que sem o direcionamento missionário foram incorporados indiscriminadamente.
A aproximação entre a igreja e governo se estreitou no período imperial, quando o catolicismo foi oficializado como religião do país na constituição de 1824, perdurando até a revogação na constituição republicana de 1891, que tornou o país laico. Tem uma colocação do autor que não concordo, de que existia uma coexistência pacífica com outros credos, citando-se o texto integral da constituição (Art. 5) de que eram permitidos no contexto domiciliar. Existe muita diferença entre teoria e prática. Sei muito bem que o período entre as constituições criou uma mentalidade de visão subversiva à outras manifestações religiosas, que se estendeu ainda em muitas décadas no século XX estimulando sérios embates religiosos, como o que ocorreu em Macapá com a chegada dos evangélicos em 1916 - seja pela tradição familiar ou incentivo de padres baseando-se nessa mentalidade ultrapassada.
A aproximação com o estado, chamado de padroado régio, custou  foi a jurisdição prática na igreja, que era diretamente influenciada pelo governo, deixando-a à mercê de politicagem e mistura com paganismo, citando-se a introdução de membros da maçonaria.
No início do século XX há referência à ação católica com um dinamismo que na prática a colocava desempenhando papel governamental em locais altamente carentes, por sua mobilização contemplando a saúde, a educação e a valorização das comunidades. O autor cita aproximação governamental, mas a igreja tinha outra caracterização, que se reformulou pelas determinações progressistas do Concílio do Vaticano II e, mais adiante, por missionários influenciados pela Teologia da Libertação (onde o evangelho era direcionado à libertação do homem da injustiça social, com desenvolvimento de ações nesse sentido) ou por movimentos de combate à opressão e injustiça. Esse é o contexto privilegiado no livro, ocorrido em paralelo ao governo da ditadura militar, onde as mazelas sociais instigaram o catolicismo ao desempenho de lutas principalmente no contexto social, resultando em movimentos sindicais, associação de moradores, cursos profissionalizantes e maior participação política em prol dessas questões.


Walbi Silva Pimentel - Especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amapá e graduado em História pela mesma instituição. Há três anos trabalha na rede estadual de ensino no Amapá, ministrando aulas de História às séries do Ensino Médio.
Desde sua juventude é militante das Comunidades Eclesiais de base (CEBs), Pastoral da Juventude e Pastoral Carcerária, de onde tirou sua inspiração para este livro (BIOGRAFIA NO LIVRO)


Outro momento mostra a Amazônia e o Amapá nesse contexto, destacando o padre Júlio Maria Lombard, nos anos de 1913 à 1923 (quando trabalhou em Macapá) e a chegada dos missionários estrangeiros do PIME a partir de 1948.
Sobre o padre vemos aquela questão do catolicismo voltado às carências sociais, em seu importante trabalho na educação, saúde e cultura numa região sem infraestrutura. Além dessas ações, a igreja que age no papel governamental por sua representatividade prática é exemplificada também no autoritarismo que o mesmo padre desenvolveu, como se fosse a autoridade maior, em embates com o movimento do Marabaixo (quase causando um tiroteio no domicílio da igreja) e contra o primeiro evangélico na cidade, a quem mandou prender arbitrariamente, destruindo o material que trazia (Bíblias e literatura evangelística) e semeando mentalidade perseguidora. Fato ocorrido em 1916 (que o autor em um pequeno lapso referenciou em 1913).
A chegada dos missionários do PIME (Pontifício Instituto das Missões Exteriores), outro momento de destaque no livro na percepção da ação católica, mostra padres que eram mais envolvidos com questões sociais e movimentos de esquerda, vindo também em resposta à carência de sacerdotes católicos. O autor cita a chegada de 53 entre os anos de 1948 à 1972 (exemplificando, Simão Corridori, Ângelo Negri, Pedro Locati e Antonio Cocco); que houve aceitação grande, abertura de igrejas na capital e interior, e que o PIME, não encontrando campos tão favoráveis em outros locais, teria solicitado a vinda à nosso país, onde se ajustou bem na carência que existia no catolicismo, desenvolvendo trabalhos em três cidades onde se instalaram: São Paulo, Manaus e Macapá.

Entre as comunidades e paróquias fundadas pelo PIME:
- Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Santana, 1954)
- Nossa Senhora da Conceição (Macapá, 1959)
- Nossa Senhora das Graças (Oiapoque, 1959)
- Nossa Senhora de Fátima (Macapá, 1964)
- Nossa Senhora dos Navegantes (Região das Ilhas, 1974)
- Sagrado Coração de Jesus (Macapá, 1978) 
- Cristo Libertador (Pacuí, 1982)
Bairro do Buritizal em 1976 (Acervo pessoal do Pe. Luís Carlini - Pág. 127 do livro)
Ilustração dos cenários de desenvolvimento das CEBs
O capítulo final é dedicado à ação comunitária, envolvida com mutirões, assistencialismo, sindicatos, associação de moradores e envolvimento político, que aproximou o catolicismo principalmente das populações mais carentes. Razão do título do livro e do enfoque em especial no período da ditadura. Segundo o texto, havia o anseio, a cobrança e a expectativa da ação católica nesse sentido. Fatos que reorganizaram a igreja em seu direcionamento.
Foi o que entendi em uma interessante leitura.

(REGISTRO NO SKOOB, em 12/08/2017)


Pode ser adquirido nas livrarias em Macapá 
ou consultado nas Bibliotecas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Assembleia de Deus: Cem anos de transformações espirituais e sociais no Amapá (Francisco Sena - ORG, 2017)

Obra preciosa, disponibilizando referencial histórico pouco difundido e, em termos gerais, desconhecido pelo povo amapaense. A abordagem apresenta pesquisa sobre o Centenário da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Amapá, tema tratado também em valorosas publicações recém lançadas, mas com diferencial de resgate histórico da trajetória do catolicismo e de outras denominações evangélicas no estado após o pioneirismo assembleiano.
Os autores, pesquisadores vinculados à FATECH - Faculdade de Teologia e Ciências Humanas, traçaram um panorama que permite a percepção da igreja em sua ação na Amazônia e Amapá, ressaltando fases, principais pontos relacionados a elas e atual situação do "assembleianismo" amapaense. Aspectos que se organizam em quatro artigos de maneira sucinta, tendo riqueza e ineditismo de informações, principalmente para a classe estudantil.

Título: Assembleia de Deus:
           Cem anos de transformações espirituais e sociais no Amapá
Autores: Francisco Maurício de Sena Júnior (ORG)
               Ezer Belo das Chagas
               Edna Pasini das Chagas
               Falbert Maurício de Sena
               Fredson Maurício de Sena
               Flábio Sena
Editora: Tarso
Páginas: 59
Ano: 2017

Breve História da Igreja Católica no Amapá é o primeiro momento e o que chamou minha atenção foram as considerações sobre a ação missionária na Amazônia, marcada pela expulsão dos jesuítas na metade do século XVIII. Nas considerações essa ação deixou as missões suscetíveis à incorporação de tradições, ritos e festejos até então não oficializados no catolicismo, mas aceitáveis na adesão popular (o livro não cita, mas me veio como exemplo a visão sobre a Festa em Mazagão ou o reconhecimento de santos vindos do apelo popular, que em determinado momento ultrapassaram uma hierarquia administrativa e se estabeleceram).
Outros aspectos importantes foram: a oficialização do catolicismo como religião do país entre as constituições de 1824 e 1891 (criando raízes para conflitos que se estabeleceram na visão sobre outros credos, pela mentalidade sobre o permissivo e subversivo, transmitida de forma tradicional entre as gerações); o engajamento nas causas sociais (para muitos, em termos práticos, criou imagem de fusão entre poder governamental e autoridade religiosa); e a reformulação dinamizada pelo Movimento Carismático.
Em Macapá, destaque para a Igreja de São José (o prédio mais antigo da cidade, de 1861), os conflitos com a chegada dos primeiros missionários evangélicos e a história do estabelecimento do Círio de Nazaré.

Em Breve História das Igrejas Evangélicas no Amapá é apresentado o pioneirismo dos missionários  da Assembleia de Deus, algo que tem sido estudado em maior destaque esse ano, por isso o que me instigou mais nesse artigo foram informações sobre o início de outras denominações evangélicas (como os Presbiterianos nos anos 40 e Batistas nos anos 50). Desse ponto em diante o foco do livro é voltado apenas aos assembleianos e, a exemplo do que aconteceu em outras partes do Brasil e em histórias do início da denominação, vemos também dissensões entre os líderes no Amapá na trajetória da igreja, gerando separações. Fato decorrente de desacordos ministeriais que deram origem a duas convenções estaduais de pastores: a CEMEADAP (Convenção Estadual dos Ministros das Assembleias de Deus no Amapá)  e UFIADAP (União Fraternal das Igrejas Assembleia de Deus no Amapá), que tem suas histórias contadas em aspectos, embora conflituosos e nessa caracterização nada bonitos, de importância para estudos.

As transformações na Assembleia de Deus é o terceiro artigo e dos mais interessantes no livro, por mostrar a identidade atual dos assembleianos no Amapá. Duas coisas se destacam: a educação teológica de cunho acadêmico valorizada e incentivada entre os líderes, e a admissão de pastoras no ministério. Esses aspectos se ressaltaram na convenção de ministros ligados principalmente à UFIADAP que, ao lado de outra convenção de pastores do Distrito Federal (no parecer do livro) são as únicas que fazem a consagração de pastoras no ministério da Igreja Assembleia de Deus no país. Temos congregações amapaenses que são lideradas por pastoras e é ressaltado que a aceitação é grande, apesar de conservadorismo ainda presente.
O capítulo tem uma parte também interessante sobre a participação de mulheres nos relatos bíblicos do Novo Testamento. Deixo em registro as profetizas filhas de Felipe (Atos 21:8-9), a docência na igreja de Priscila (Atos 18:26) e o trabalho assistencial de Tabita, também chamada de Dorcas (Atos 9:36-43). Destaque para Gálatas 3:28, sobre a ação desejada na igreja.

O crescimento das Assembleias de Deus no Brasil e Amapá mostra um decréscimo no movimento pentecostal em termos gerais, baseado em dados do IBGE. O texto analisa a história e cita aspectos que favoreceram o avivamento no primeiro momento da chegada dos pentecostais. Estão relacionados à valorização dos marginalizados (pobres, negros, índios, ribeirinhos, analfabetos) e, principalmente, em entrega a um propósito de vida que para muitos não parece mais novidade hoje. Penso em frieza espiritual quando o evangelho parece encoberto em seu valor aos olhos de uma sociedade que procura enquadrá-lo a seus interesses e não ao real objetivo de viver em comunhão com Deus.

O livro tem esses e outros aspectos muito interessantes para reflexão e discussões no estudo da trajetória da Igreja Assembleia de Deus no Amapá.
Com exceção de alguns pontos na organização e layout que não curti, a obra é preciosa e fundamental para estudantes, historiadores e teólogos que queiram enriquecer suas pesquisas sobre o Amapá.

Mais informações sobre a história centenária da Assembleia de Deus no Amapá em:

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vila Serra do Navio - Comunidade Urbana na Selva Amazônica (Benjamin Adiron Ribeiro)

Esse é precioso na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá. Espia só...

"Esta obra descreve, analisa e critica todo o processo de criação, desenvolvimento e implantação do núcleo urbano da Vila de Serra do Navio, no Amapá.
A partir da descoberta do manganês na região em meados dos anos 50, o autor investiga em detalhes as questões ligadas ao urbanismo, à arquitetura, aos materiais e à construção de uma cidade nova na selva amazônica.
Completa o texto o capítulo OPINIÕES E COMENTÁRIOS, onde aparecem avaliações recentes de pós-ocupação as quais atestam ainda hoje a qualidade do espaço urbano e arquitetônico construído há mais de 30 anos."
 
BENJAMIN ADIRON RIBEIRO (Informação retirada do livro, contextualizada para o início da década de 1990) 

Autor: Benjamin Adiron Ribeiro
Editora: PINI 

Ano: 1992 
Páginas: 110 
Tema: Arquitetura, Planejamento Urbano, Serra do Navio, História

Registro no SKOOB, em 28/04/2017 
A obra foi publicada na década de 1990 com um olhar na história, peculiaridades, inspirações e projeção da Vila de Serra do Navio, enquanto construção impactante e diferenciada no cenário amazônico. 
Algo que se destaca é o belo acervo de imagens (fotos, desenhos, plantas), ilustrativo da proposta inovadora e minuciosa na inserção do homem na região. Percebemos planejamentos contemplativos ao bem estar, à vida social, à segurança, à educação, à aclimatação, ao conforto, à praticidade, entre outros aspectos numa série de pequenos detalhes, às vezes, de simplicidade espantosa, mas com resultados práticos harmoniosos e muito positivos aos objetivos traçados. 

Ruas largas e pavimentadas
Exemplificando, as ruas secundárias (entre as principais que contornavam a vila) foram planejadas mais largas e sinuosas visando o lazer das crianças.

Casas diversas, sem muretas ou gradis.
As casas, embora alinhadas, tinham fachadas diferenciadas em formas e cores, buscando-se ruptura com um cenário que inspirasse monotonia; privilegiou-se as venezianas na arquitetura diante das condições climáticas; muitas casas tinham algumas paredes que não se encontravam com o teto no ambiente interno, favorecendo a ventilação; entre outras coisas.

Móveis desenhados pelo arquiteto e oficinas com artesãos treinados pela ICOMI.
Interessante que o projeto não visou apenas a arquitetura urbanística, mas também a idealização de móveis para as construções e a vida social.

Vila Serra do Navio
As imagens também trazem um contraste espetacular entre a modernidade que se estabelecia e o entorno impactante da floresta. Por isso há declarações peculiares, como a vila ser um milagre na floresta ou uma ilha na Amazônia

Macapá era uma pequena mancha urbana na vastidão amazônica.
O contraste também se estabelece em paralelo à realidade do cenário amapaense e amazônico.

Benjamin Adiron Ribeiro
(Autor do livro)
O livro está dividido em cinco parte:
Em O manganês no Amapá, o autor resgata de forma sucinta um histórico da região (da descoberta do manganês à instalação da vila) e também o andamento das concessões contratuais (o primeiro foi assinada em 1947, com a concessão mineral para a ICOMI; o segundo, de 1953, previa a construção do porto em Santana; e o terceiro, também assinado em 1953, estabelecia a construção da ferrovia). O capítulo encerra com breve cronologia sobre esses eventos. Não posso deixar de registrar um pequeno erro. Nas sucessivas referências à cidade de Santana o autor cita a localidade como Porto de Santana.
Em Informações Básicas o aspecto valorizado é o estudo para a construção da vila, que abrangeu o contexto ambiental, social e econômico da região.
Planejamento, Projeto e Construção é o capítulo mais extenso, com riqueza de imagens e projeções para a vila nos aspectos levantados, sejam estruturais ou urbanísticos, em proveitosos detalhes.
A quarta parte mostra Opiniões, Comentários e Controvérsias. Depoimentos diversos sobre a vila. Foi Raquel de Queiróz, entre as declarações, quem citou a ICOMI como um milagre amazônico, e o encerramento dessa parte mostra um debate nas perspectivas iniciais para a construção (o confronto de ideias entre vila definitiva e acampamento provisório; cidade planejada em paralelo à cidade espontânea; comunidade fechada e comunidade aberta; adensamento demográfico e serviços urbanos; plano diretor e planejamento urbano). Segundo o texto, o que imperou foi a maleabilidade em ir construindo e adaptando, sem se estabelecer um rigoroso e pomposo plano para ser seguido com rigor.

Oswaldo A. Bratke
(Autor do Projeto)
Em Conclusões o autor tenta chegar a um consenso no que motivou sua pesquisa no olhar sobre a Vila de Serra do Navio: As perspectivas de vida, em diferentes classes sociais, são melhores em comunidades urbanas planejadas? (resposta sujeita a critérios de avaliação subjetiva, mas a organização foi ressaltada); A quem caberia a responsabilidade e a iniciativa de providenciar o planejamento das comunidades urbanas? (o autor dissertou sobre ações conjuntas); Qual o papel do arquiteto no planejamento urbano? (consenso sobre uma visão privilegiando diferentes fatores, como se estabeleceu em Serra do Navio).
Acredito que para todos os moradores serranos dos áureos tempos da ICOMI a obra seja saudosista e preciosa. Morei em Serra do Navio entre os anos setenta e oitenta e a lembrança e experimentação de tudo que vivi foi realmente diferenciada. As coisas só funcionavam dentro de um planejamento e harmonia entre autoridades e sociedade civil. Sem isso, como hoje, se estabeleceu a ruína e descaracterizações constantes.

Todas as imagens foram retiradas do livro, 
que está à disposição para consultas 
na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá - Amapá.