As postagens desse blog são em caráter informal, de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos e erros.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Desafios de uma Cirurgiã Plástica na Amazônia (Zeneide Alves de Souza)

Ao ler este livro, você vai se impressionar como uma pessoa humilde, mas perseverante e corajosa, junto com sua família consegue vencer os desafios que a vida lhe impôs. Drª Zeneide Alves de Souza (acreana) após 54 anos servindo o Amapá, como cirurgiã plástica, conta sua trajetória.
O incentivo para escrever o livro partiu de amigos e da família, que acompanham a saga da autora e sabem de sua importância para a saúde e estética dos amapaenses. A obra entremeia os fatos de sua vida com os do Amapá, no ambiente social e político, contando a história de Zeneide e do estado. Proporciona conhecimento sobre a determinação desta mulher para conquistar seu espaço, e uma volta ao tempo, do Território até nossa história mais recente.
(Trecho da apresentação)

Informações do livro:   
Título: Desafios de uma Cirurgiã Plástica na Amazônia

Autora: Zeneide Alves de Souza
Editora: Premius
Ano: 2013
Páginas: 239
Tema: Biografia/Relatos e Memórias

Bela obra! Inspiradora em determinação. É o que a autora sugere ao discorrer sua trajetória como cidadã e profissional na área da saúde no Amapá. As narrativas se iniciam no Acre e sãos recheadas do cotidiano nortista. Algumas descrições parecem contos ou causos pelas particularidades e extravagâncias. Nunca poderia imaginar, por exemplo, que algumas pessoas buscavam cadelas pretas para tirar leite para crianças (uma crença para a formação de bons dentes). Por essa e outras a leitura foi interessante desde o início.
Gostei também das histórias nos primeiros anos no Amapá como professora em lugares longínquos de difícil acesso. As peripécias narradas como estudante na antiga Escola Doméstica parecem saídas de um romance e gostei, principalmente, dos relatos da vida como profissional de saúde, tendo que conciliar o teórico com o real e prático. Experiências compartilhadas no Hospital de Emergência Osvaldo Cruz e no Hospital Geral de Macapá. Acredito que os acadêmicos dessa área deveriam conhecer essas histórias, que mostram uma constância em ideais que hoje se perdem facilmente, ou se vendem, trocam, um mundão de coisas...
Sei que autobiografias costumam ser tendenciosas, mas o livro realmente foi de leitura prazerosa tocante e edificante.
O livro é muito bom, só não gostei do acessibilidade. Almejei por um tempo nas bancas, mas o preço exorbitante me afastava, não sendo em nada convidativo para muitos leitores também. Meu exemplar doei para a Biblioteca Pública de Macapá, onde o havia buscado sem encontrar. Tenho em mente que toda publicação lançada no Amapá deveria ter um exemplar naquele local.

Página da biografia no livro

A seguir, um dos relatos de infância da autora, contando uma presepada inusitada para o atual cenário da Fortaleza de São José de Macapá.

Visita à Fortaleza de São José

Mais uma travessura de criança. Há em Macapá um Forte chamado Fortaleza de São José, construído à margem do rio em frente à cidade, iniciado pelos portugueses, feito por escravos e que já teve várias utilidades: presídio, quartel, local de desfiles. Na época da minha infância era um zoológico, havia muitas árvores frutíferas, principalmente mangueiras, e alguns macacos soltos. Eu comprei umas bananas e, sem ser percebida entrei para distribuí-las à macacada e, para minha surpresa, um destes animais com um filhote nas costas se atracou em mim para pegar as bananas, pense num susto, saí gritando porta afora, com os macacos atracados nas costas, o guarda também saiu correndo, foi uma cena hilariante; o guarda pedia para que eu parasse, mas eu agora estava com medo também do guarda, depois de muita correria nós três fomos contidos; o guarda me tranquilizou, mas me deu uma bronca por ter tentado alimentar os animais e entrado sozinha no recinto. Mesmo depois desse episódio, continuo gostando desses animais; quando morei no interior sempre tive um macaco de estimação. 
(Trecho da pág. 64).

Vista aérea da Fortaleza de São José de Macapá na década de 1960

A obra está disponível para consultas
 na Biblioteca Pública Elcy Larcerda em Macapá.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Uma aventura no Bailique (Decleoma Lobato Pereira)

Bela obra! Leva o leitor a uma viagem pelo Bailique, arquipélago na costa do Amapá, apresentando saberes diversos que são valorizados em uma narrativa envolvente.
A autora, Decleoma Lobato Pereira, é pesquisadora cultural no Amapá, resultando o livro de uma ação conjunta governamental, no início da década passada, que fez um levantamento sociocultural. O livro é revelador do homem, da natureza, do folclore e do cotidiano nessa região singular, sujeita a transformações constantes pelas imposições naturais, impactante ao amazônida ali estabelecido. 

Decleoma Lobato - Autora
(Foto: Rogério Castelo, 2013)
Decleoma apresenta o saber no olhar de uma menina, no estilo de histórias juvenis relacionadas à férias escolares em viagens à casa dos avós. Embora o conceito seja conhecido, o livro é inédito na exposição rica e bonita sobre a região. O texto é essencialmente descritivo, com uma linguagem instigante e empolgada na apresentação. É assim que o leitor embarca em uma viagem que se inicia no canal do Jandiá, em Macapá, rumo ao Bailique. Vemos o estilo de vida ribeirinho, a cultura da carpintaria naval, a tradição das parteiras, festas tradicionais, a pesca, a culinária, as lendas, a religiosidade, o imaginário, a escola, a arte, a natureza em sua exuberância característica e o amapaense do Bailique em seu carisma e vida característica.
Ressalte-se que há uma valorização do saber ancestral e o livro proporciona uma leitura rápida, curiosa e agradável, com ilustrações de M. Silva e fotos da região.
O arquipélago é apresentado de maneira uniforme, sem se deter especificamente a uma comunidade (aspecto em que a obra poderia ser mais reveladora, porém, está muito atrativa em sua proposta sociocultural, o objetivo principal).
Particularmente, gostei dos relatos lendários, principalmente sobre os botos. Um fascínio que sempre me instiga.
Legal e convidativo para conhecer um pouco de uma região de ilhas na costa amapaense, o famoso Arquipélago do Bailique, que muitos amapaenses não conhecem (como eu) mas que nessa obra tem uma interessante oportunidade. 

Com a autorização da autora, disponibilizo a obra para apreciação pública. 
   Uma Aventura No Bailique (Decleoma Lobato Pereira - 2005) by Casteloroger on Scribd

Informações do livro:   
Título: Entre mãe-do-mato, boto e "mocós": Uma aventura no Bailique
Autora: Decleoma Lobato Pereira
Ilustrações: M. Silva
Editora: Confraria Tucuju
Ano: 2005
Páginas: 44
Tema: Cultura Distrito do Bailique

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Peripécias da Natureza (Jonas Diego Teles)

Oi! Oi! Voltando das férias. Ah, quer saber... Falando em férias, essa obra me veio na lembrança. É um passeio pelos rincões do Amapá (e laiá!) na percepção de um poeta, com o deslumbramento da descoberta e a simplicidade das palavras.

Informações do livro:

Título: Peripécias da Natureza

Autor: Jonas Diego Teles

Ano: 2008

Editora: Gráfica JM

Ano: 2008

Páginas: 86

Tema: Poesia / Amapá



 "Não se espere aqui encontrar os experimentos linguísticos de um expert, os voos delirantes de um poeta angustiado, mas com certeza vamos nos deparar com as experiências de vida e com a imaginação de um ser humano que descobriu sua arte através dos olhos da alma. Esse olhar que somente os artistas conseguem traduzir. Por isso, acredito que este início de jornada poética do Jonas Diego Teles o leve a encontrar novos caminhos para a sua poesia. Uma poesia singela, com odores e sabores do nosso país, da nossa terra abençoada, onde cantam pássaros e um oceano de água doce tão poderoso e amado."
PAULO TARSO (Comentário no livro)

Pensa em um cobertor aconchegante embalando sonhos nas noites de um cidadão... Foi a imagem que o livro me passou, onde o cobertor é o cenário natural do Amapá e o dorminhoco o autor. Pode parecer engraçada a definição para a obra, mas acredito ser muito pertinente. Olha só....
O livro tem caráter essencialmente idílico, de deslumbramento e entusiasmo com as descobertas em um estado considerado dos mais preservados no país. Isso tende a ser mais eloquente em visitantes e pessoas com olhar sensível. Fatos que se consumam em Jonas Teles. Um maranhense estabelecido nessa terra desde 1991, quando aqui chegou buscando perspectivas para sua vida com a venda de quadros. De suas impressões temos cerca de setenta poesias nessa obra. Nascidas do olhar sobre a Cachoeira de Santo Antonio, o Rio Amazonas, a Linha do Equador, a pororoca, a Fortaleza de São José de Macapá, o Curiaú, a fauna, a flora, o folclore, a cidade que lhe pareceu aprazível, etc e etc. Impressões voltadas para a natureza recém descoberta em suas inspirações, a quem deu o nome de Peripécias da Natureza (e eu aqui transformei em um cobertor que o acolheu em suas buscas e sonhos...).
Os textos são singelos, dominados por saber popular em sua beleza simples e de certa ingenuidade visitante. Digamos, um pueril sonho bonito.
É, mais conhecendo-se a intimidade do Amapá, descobrimos outras coisas também. O poeta em alguns momentos desperta de seus sonhos de encantos e medita em uma observação  social. Ainda que poucos (pouquíssimos) o livro tem sutis referências à impacto ambiental ou à realidade sofrida do garimpo
Os textos finais trazem também um momento introspectivo, de melancolia em histórias pessoais. Parece que o poeta já não dorme mais só em seus idílicos encantos... 
Se o sonhar propiciou a maior parte do livro na trajetória inicial, um caminhar atual por esse estado e cidade vai revelar que os sonhos muitas vezes tem cores mais bonitas no nosso entusiasmo. Afinal, a pororoca perdeu sua força no Araguari, a Cachoeira de Santo Antonio está com outra cara e as ressacas têm povo que vive sofrendo. Ah, também nunca vi um boto na orla de Macapá...
Vamos sonhar e acordar para nossa realidade.

Sonhando...

TERRA BENDITA

Deambulava eu tranquilamente
Na linha imaginária do Equador
Meus olhos se deslumbraram de repente
Com o peneirar feérico do beija-flor.

Continuei o passeio. Mais adiante
Me envolvi num sonoro assobiar
No seu bater de asas bem galante
Era o fenômeno do exuberante sabiá.

Tem a fauna e a flora admirada
Nesta terra compacta de guerreiro 
É o meio do mundo respeitado
Do nosso rico BRASIL. é o primeiro.

É umas terra é um paraíso e referência
Que o Marco do Zero improvisou
Um improviso eterno da ciência
Que a geografia aqui consolidou.

Hoje vivo ao gozo da felicidade
Nesta linda e maravilhosa cidade
A qual aprendi a amar.

Sem vergonha de ser feliz
Sou uma clava, sou árvore de raiz
Na terra bendita: MACAPÁ. 

E acordando...

 DOR INIMIGA

Pensativo no meu leito
Raciocinando não sei o quê
Presumindo o tal rejeito
Que a vida quis me fazer...
(...)

Pensando....

REVOLTA

Muitas coisas aconteceram
Fatos nunca narrados
Homens morreram enterrados
Nesses garimpos do Norte...
(...)

Acordado vendo meu Amapá. 
Que antes de tudo de tudo é assim...

SOU AMAPÁ GERANDO AMOR

Sou rico em cataratas!
Grandiosas são minhas matas
Sou abraçado pelos rios.

Minhas veias são as águas
Meu organismo fauna e flora 
Sou começo do Brasil.

À margem do Amazonas sou a capital
Sou hemisfério, sou tropical
Sou Marco Zero do Equador

Sou o alagado, sou a serra
Sou esta rica terra
Sou Amapá gerando amor.


A obra está disponível para consultas na 
Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia 
 
Macapá - Bairro Central

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Trapiche - Ancoradouro de Sonhos (Vários Autores)

"É surpreendente a influência que o velho trapiche, da frente de Macapá, tem na alma das pessoas. Gente que cresceu com ele, gente que o conhece a pouco tempo, gente que passa por lá de vez em quando. De alguma forma, o aspecto do velho estirão de madeira se funde com os anseios de liberdade, com as lembranças que vêm e vão ao sabor da maré, com o imaginário barquinho de papel que leva os sonhos para onde eles quiserem ir. Sempre há algo a deixar ou buscar no velho trapiche.
Em nove crônicas, lindamente ilustradas, esse livro exibe um envolvente perfil do trapiche e dos sonhos ali ancorados. Algumas crônicas são pura e deliciosa ficção. Outras, são relatos poéticos da cidade que aprendeu a crescer, sem abandonar sua história. Um trabalho que marca o resgate de um dos principais ícones da cultura e da história da cidade de Macapá, o Trapiche Eliezer Levy."
MÁRCIA CORRÊA (Organizadora do livro)
 

Informações do livro:   
Título: Trapiche - Ancoradouro de Sonhos
Autores: Vários
Organização: Márcia Corrêa
Ilustrações: Luis Porto, Manoel Bispo, Da Gama, Ernandes Melo e Karla Gomes
Editora: GEA
Ano: 1998
Páginas: 66
Tema: Crônicas / Amapá

Sumário:
- Sob o céu, no trapiche (Luli Rojanski)
- Memórias do trapiche (Elson Martins)
- Grilhões Imaginários (Márcia Corrêa)
- O velho e o trapiche (Carlos Bezerra)
- Gostosas trapichadas (Hélio Pennafort)
- O homem curvo (Fernando Canto) 
- Um corpo no ar (Corrêa Neto)
- Clarões da alma (Capiberibe)
- Meninas das ilhas (Vássia Vanessa da Silveira)

O Trapiche Eliezer Levy está entre os principais pontos turísticos na orla de Macapá. Essa obra o homenageia com crônicas escritas por ocasião de uma de suas mais importantes reformas, nos anos noventa, que o modernizou e trouxe nova perspectiva para o turismo.
A publicação teve tiragem modesta e simples em seu layout, contando com nove textos de escritores locais, também ilustrados por artistas da terra, organizados por Márcia Corrêa. Alguns são nostálgicos, com um saudosismo de outros tempos, quando o trapiche tinha uma conotação de ponto de entrada da cidade e maior movimentação (nesse aspecto podemos citar os textos de Hélio Pennafort e Capiberibe). Outros são introspectivos, com uma reflexão sobre as efemeridades da vida, claro, tendo como testemunha o velho trapiche (Luli Rojanski, Corrêa Neto, Carlos Bezerra e Fernando Canto tem esse ponto em comum em suas crônicas). Vemos também o velho estirão de madeira ou centopeia do rio (gostei desses termos!) associado a boemia da juventude de outra geração (texto de Elson Martins), com um romantismo poético sobre a emancipação de uma ribeirinha (crônica de Vássia Silveira) e em um devaneio com conotação religiosa evocada pela pedra e imagem de São José (no texto de Márcia Corrêa).
Pena que esse trapiche não tem recebido a atenção e cuidados que merece e a poesia muitas vezes acaba ficando só na literatura.

MENINA DAS ILHAS

Ilustração de DA GAMA, para
a crônica de Vássia Silveira
Vazante
Uma dor aguda apertava-lhe o peito, mas remava. O balanço e a escuridão das águas faziam-na revolver lembranças da infância na roça, os banhos de rio, o peixe que levava para garantir a comida do dia.
Pensava o quanto tinha sido feliz no pedaço de chão da família. Nele, tinha aprendido a apanhar açaí, nadar, andar pelos matos sem sentir medo ou se perder.
Viu os meninos puxando-lhe a barra do vestido de xita, a mãe gritando para ir logo apanhar a farinha da comadre, o pai jogando na cesta os tamuatás fresquinhos.
Pareceu-lhe, de repente, que a fuga tinha sido obra de encantamento de boto. Sentiu um gosto salgado molhando-lhe a face.
Cheia
Naquela noite, Ciã apertou-se num abraço longo à mãe. Beijou os irmãos mais novos. Pediu a benção ao pai.
A velha, cansada dos anos que pesavam-lhe as costas, estranhou a afetividade da menina.
A desconfiança, no entanto, não lhe fez imaginar que, dali em diante, não teria mais a filha consigo.
Movida pela vontade de conhecer o outro lado, deixou a casa dos pais antes do dia amanhecer.
Pororoca
Sentiu a força da criança que trazia no ventre e lembrou a emoção de menina ao ver, estendido sobre as águas, o madeiral do trapiche. Lágrimas pesadas molharam novamente o rosto enegrecido pelo sol.
Na época, Ciã não sabia nada da cidade. Tinha chegado às proximidades do Eliezer Levy, que lhe parecia uma cobra grande boiando nas águas do Amazonas, sem imaginar a vida dura que levaria nos próximos anos.
(Início da crônica Menina das ilhas, de VÁSSIA VANESSA DA SILVEIRA)


O trapiche foi construído em 1938, em Macapá, pelo então prefeito Moisés Eliezer Levy, com verbas oriundas do Governo do Estado do Pará e por ordem do  interventor do Pará, Magalhães Barata.
A obra, antes de ser construída foi submetida à Marinha Brasileira, que a inviabilizou em razão da frente de Macapá ser bastante rasa para atracadouro de embarcações que, no período da maré baixa, tinham que ficar a mais de mil metros de distância da orla de Macapá.
Desrespeitando a orientação da Marinha Brasileira, o interventor resolveu autorizar a construção do trapiche, que ficou construído em madeira até 1998, quando sua estrutura foi substituída por concreto, com a disposição de um bondinho para transportar turistas do inicio até o fim, onde tem uma estrutura de restaurante.
Com a transformação de porto para um complexo turístico, as embarcações que antes paravam no trapiche passaram a desembarcar em rampas situadas na orla do Santa Inês.
Situa-se em Macapá, na Avenida Beira-Rio, em frente ao  Macapá Hotel. 
(Texto de EDGAR RODRIGUES - Historiador)

A obra está disponível para consultas na
Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Sala da Literatura do Amapá e da Amazônia 
 
Macapá - Bairro Central


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